sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Clássico atemporal: Marantz Consolette Model 1 Valvulado

Falaaaa galerinha amante dos vintages! Estamos de volta com um grande clássico desta vez!

Recebemos para restauro um Marantz 1 Consolette. Este chegou de um cliente que tem um setup mono montado especialmente para ouvir vinis mono em 33/45/78 rpm e fitas de rolo mono Full Track, por isso, não se trata do par, apenas de uma unidade. 

Vocês não imaginam o quanto é comum por aí quem tenha setups mono montados, específicos para ouvir os discos Mono da forma como deveriam ser ouvidos!! Nos acostumamos tanto com os sistemas estéreo que às vezes nem imaginamos a grande importância dos sistemas mono que vieram antes destes.

Para quem não conhece o Marantz 1, quero lembrar antes de começarmos que este equipamento usa uma fonte externa, separada do gabinete principal. Recebemos com o Pré uma fonte fabricada, ou seja, a fonte que recebemos não é a fonte original da Marantz, mas sim uma que foi feita por alguém para uso com este Pré. O proprietário preferiu não importar uma original, mas sim apenas restaurar toda parte eletrônica da fonte montada de forma a poder usá-la confiavelmente.

O objetivo do proprietário neste restauro não é manter a originalidade absoluta, mas sim gastar todo necessário para garantir uma operação perfeita e confiável, pois o equipamento seria usado diariamente.

O Pré chegou até nós com uma aparência bem ruim: 



Vocês já sabem que aqui na Regence, gostamos dos desafios não é mesmo? Como sempre, vamos começar pela fonte. Iniciamos o trabalho desmontando e analisando o estado e as tensões... não foi surpresa descobrir que estava tudo errado. A tensão de filamento estava quase 50% acima do nominal, enquanto a tensão de B+ (placa das válvulas), estava 25% abaixo da nominal, tudo por culpa de um transformador que, ao que tudo indica, foi reaproveitado de outro aparelho na montagem desta fonte substituta. Além dos problemas nas tensões, haviam vários outros problemas.

Vamos tentar achar o erro na foto abaixo? Dê uma olhada e comente nos comentários no fim desta postagem  e veja se você acertou.... a resposta está logo abaixo da foto:




Se você não viu o problema, olhe com bastante atenção o porta fusíveis... alguém soldou um fio nele substituindo o fusível original! Poxa vida, um fusível custa apenas alguns centavos... mas alguém achou que não valia a pena investir alguns centavos neste Marantz. 

Reparem a seguir que a fiação da fonte original estava muito bagunçada. Isso não é crítico (neste caso, em muitos outros sim), mas nosso perfil de neuróticos por perfeição faz com esse essa bagunça de fios exagerada e desnecessariamente longos nos deixe a beira de um colapso nervoso...




Decidimos por refazer a fonte por completo, e o primeiro passo é projetar e enrolar um novo transformador com as mesmas especificações do original da Marantz, além de substituir todos diodos de B+ por versões UF (Ultra Fast), refazer a fiação, soldas, etc. Primeiramente, fizemos um novo transformador:




Depois, prosseguimos com a montagem completa. A fonte finalizada ficou assim:




Agora que temos uma fonte perfeitamente funcional, com todas as tensões e disponibilidade de corrente corretas, vamos verificar o estado geral do Pré. A primeira surpresa é que alguém resolveu arrancar o soquete junto com a lâmpada original piloto e remendou um LED com fita isolante, vejam que horror:




Vamos remover a fita e ver o que tem enrolado nela?



Um LED remendado com fita isolante e colado ao painel... bom, de cara já vamos instalar um soquete novo e colocar de volta a lâmpada original. Por sorte, conseguimos encontrar todos componentes para importação.




Agora é só soldar os fios e vejam só que beleza... um trabalho limpo e sem gambiarras!




O próximo item que nos chamou a atenção foram alguns capacitores. Um deles, este verde que aparece na foto a seguir, ficou extremamente mal instalado, além de ser desnecessariamente muito maior que o ideal... parece que alguém antes de nós fez um daqueles reparos sem qualquer planejamento e importação dos componentes corretos, acabou usando qualquer coisa que já tivesse em mãos, e o resultado final foi um Pré que não funcionava bem, obviamente.  A seguir uma foto de como estava o Pré por dentro quando o recebemos.




Como o restauro já estava bastante dispendioso devido a grande necessidade de importação de peças com dólar alto, o proprietário pediu para fazermos apenas as trocas de componentes necessários, sem upgrades. Fizemos um recap apenas onde era realmente necessário...





Em seguida, percebemos que este Marantz sofria de um problema comum a todos estes aparelhos: os isolantes de borracha, que protegem a placa das válvulas de vibrações externas, estavam totalmente deteriorados pelo tempo, ressecados e quebradiços.





A única solução correta aqui é importar novos isolantes e instalá-los... vejam como ficou depois:




Falando em válvulas, todas as 12AX7 deste pré estavam descasadas em marca e transcondutância, uma bagunça! Resolvemos instalar válvulas New Old Stock (NOS) RCA, que no momento desta postagem está em estoque e em promoção em nossa loja:



COMPRE AQUI AS VÁLVULAS RCA 12AX7 NOS


A seção de filtragem da tensão de entrada do pré também foi toda revisada e os devidos componentes substituídos.




Por fim, temos de cuidar da parte estética não é? Os knobs estavam todos enferrujados...



Estavam feios não é? Mas não é nada que uma cuidadosa galvanoplastia não resolva, vejam o resultado!




Agora é só colocar tudo no lugar!


Na hora de fazer estes restauros estéticos, é sempre importante que o mesmo seja feito de forma a manter o visual vintage de um equipamento usado. A ideia aqui não é fazer que tudo se pareça absolutamente novo... muito pelo contrário! O ideal é que tudo tenha uma aparência compatível com a idade do aparelho! Veja como os knobs ficaram bonitos e ao mesmo tempo com uma bela aparência de uso, fazendo com que o aparelho não pareça ter sido restaurado, pois mantém uma aparência extremante fiel com as marcas e sinais que deveria ter pela sua idade. Usamos aqui o mesmo conceito usado em restaurações de armas, relógios e outras antiguidades. Todo restauro deve trazer de volta o item a seu funcionamento e integridade estrutural, mas deve resguardar a aparência de um belo clássico vintage!  O pior que se pode fazer a uma arma ou relógio antigo em um restauro é modernizá-lo e remover a bela pátina que lhe confere autenticidade, idade, e valor para um colecionador. 

Vejam que beleza, o Pré ficou lindo, com a devida aparência de um verdadeiro vintage, e ainda funcionando e tocados maravilhosamente bem! Temos certeza que ele funcionará confiavelmente por um longo tempo agora!



Em breve tem mais por aqui meus amigos!! Visite-nos sempre e acompanhe nosso trabalho!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Pré Conrad Johnson PV-2

Olá meus amigos leitores, 2021 chegou e estamos de volta! Desta vez chegou a nossas mãos um Pré Conrad Johnson PV-2!

O proprietário pediu uma revisão geral e reclamou que um dos canais tocava mais baixo que outro. Hora de investigarmos!

O primeiro fato que percebemos, externamente, é que alguém colou pedaços de material anti-ressonante na parte de baixo do aparelho. Uma enorme gambiarra! Espero que não tenham feito o mesmo por dentro...





Alguns pedaços eram marrons, outros pretos, cortados sem acabamento e ainda com cola escorrendo! Um serviço muito pouco cuidadoso.

Mas, e dentro?





Oh não! A mesma coisa. Putz!! Pra piorar a cola que usaram é tão forte que seria impossível remover tudo sem deixar marcas ou danos.

Não sou totalmente contra o uso deste tipo de material, mas, ao mesmo tempo, os ganhos são irrisórios e imensuráveis se comparados a outros upgrades. O pior de tudo é que, neste caso, destrói o valor do item devido à total perda de originalidade, já que com a cola, a modificação tornou-se irreversível. Sou a favor de upgrades (inclusive ofereço este tipo de serviço), mas upgrades devem ser melhoras que mantenham a alma do aparelho e, sobretudo, que podem ser desfeitos e o aparelho revertido a seu estado original se necessário.

Bem, como não dá para arrancar, vamos ter de deixar.

O problema do desbalanceamento entre canais estava sendo causado por uma 12AX7 chinesa com triodos descasados instalada no lugar de uma 5751 (a válvula original do aparelho).  Para quem não conhece, as 5751 são válvulas totalmente intercambiáveis com as 12AX7, mas com um ganho levemente menor. Muitos preferem a sonoridade resultante das 5751 em relação ao uso das 12AX7.




Um nova válvula 5751 Sylvania NOS foi instalada nesta posição e o problema foi resolvido, assim como obtivemos grande melhora sonora com o emprego desta pequena belezura em um ponto tá crítico do circuito!



Estas 5751 são válvulas excelentes para quem busca um ótimo upgrade para as 12AX7, com uma sonoridade bem mais delicada, suave e orgânica. No momento desta postagem, temos a venda em nossa loja virtual as 5751 da General Electric, que são simplesmente sensacionais!


Além deste problema, um outro defeito comum aos PV-2 é o superaquecimento da ponte retificadora. Optamos por instalar um pequeno dissipador usinado em cobre para ajudar na troca de calor.



Por fim, os potenciômetros e chaves foram limpos, fizemos nossa audição de 8h e o pré estava pronto para ser devolvido ao proprietário! Mais um valvulado que volta a seu perfeito funcionamento!





Este aqui foi rápido e simples, daqueles aparelhos que mal esquentam lugar e já se vão...

Em breve mais restaurações por aqui! Fiquem ligados e Happy Listening!















segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

 Olá pessoal!

Sabemos que o Blog ficou um tempo sem atualizações, mas daqui para frente, tudo será diferente! Em breve mais um post para vocês!

Estamos de casa nova e em 01/01 inauguraremos nossa nova loja virtual. Também reativaremos este nosso blog com novas postagens.

Agradecemos a todos nossos clientes e amigos que tanto nos apoiam e nos acompanham!




domingo, 1 de outubro de 2017

Um raríssimo gravador de rolo! Conheçam o Otari MiniPro!

Pessoal, mais novidades! Temos hoje outro gravador de rolo para restauro, e desta vez um super raro - o Otari MiniPro!

A Otari tornou-se popular quando começou a produzir seus gravadores profissionais, que encontraram seu espaço em estúdios ao redor de todo mundo. A Otari foi uma empresa japonesa que conseguiu produzir maravilhosos gravadores de rolo de qualidade inigualável - se você nunca ouviu um, ouça, pois vale a pena!

A série mais famosa de gravadores da Otari são os MX-5050, linhagem da qual sua primeira versão tinha um gabinete em madeira e se chamava MiniPro: um gravador de duas pistas e velocidade de até 15 IPS. Poucas unidades desta primeira versão chegaram ao mercado, tendo logo sendo substituída por uma segunda versão com gabinete em plástico e metal (e várias outras mudanças). Isso tornou o MiniPro um gravador raríssimo e desejadíssimo entre os colecionadores de gravadores de rolo. Só se tem notícias de pouquíssimas unidades ao redor do mundo... se você tem um, guarde-o com carinho, é um dos mais raros gravadores de rolo existentes.

Ficamos muito felizes ao sabermos que teríamos a oportunidade de trabalhar em um destes aparelhos! O gravador estava bastante descuidado e com problemas (estéticos, mecânicos e eletrônicos), mas este é um equipamento que vale o investimento no restauro, sem dúvida alguma.

Os Problemas

Esteticamente, o gravador tinha muitos arranhões, o gabinete de madeira estava totalmente estufado e danificado. No entanto, o pior defeito eram os supply spindles, que estavam quebrados e totalmente oxidados.

Supply Spindle com travas quebradas e oxidado

A oxidação poderia ser removida com bastante cuidado, mas as travas quebradas e faltantes impediriam o perfeito funcionamento do aparelho, já que os carretéis nunca poderiam ser travados nos eixos. Este é um gravador raro, e peças para ele são impossíveis de se achar. Fiquei preocupado sobre a possível solução para este problema, mas algum jeito teríamos de dar... deixei este problema em segundo plano até que pudesse pensar melhor em uma solução.

Em seguida, identificamos que o gravador entrava em modo de gravação por si só, apagando a fita que estávamos tentando reproduzir. Existia um dano eletrônico que sempre colocava o gravador em REC, mesmo quando a gravação estava desabilitada e estávamos apenas selecionando a função de PLAY. Uma de nossas fitas de teste acabou sendo danificada durante os testes, por este defeito inesperado... por sorte era apenas uma fita de teste comum, e não uma de nossas fitas de calibração da MRL.

Outro problema foi identificado na serigrafia, que facilmente se apagou com o tempo em alguns botões.

Serigrafia apagada nos botões

Por fim, a calibração do equipamento estava totalmente fora de especificação. Isso já era esperado, pois o aparelho ficou parado por muitos anos sem qualquer uso. As cabeças estavam totalmente sujas e todos os guias e eixo do capstan estavam em estado lastimável... muito trabalho e pelo menos 30h de engenharia seriam gastas neste restauro. Seria um dos nossos maiores desafios até hoje, especialmente devido à total indisponibilidade de peças de reposição em qualquer lugar do mundo.

As soluções


Bem, problemas temos muitos, mas o mais importante é encontrarmos as soluções. Por sorte, o aparelho estava em estado totalmente intocado, sem qualquer peça faltante, tudo estava original. Tivemos de começar com os pontos de mais fácil solução, enquanto pensávamos sobre o que fazer com eventuais peças que teríamos de conseguir sem qualquer tipo de fonte que as tivesse em estoque.

Iniciamos os trabalhos  removendo as oxidações dos eixos e da mesa de tração dos carretéis.

Cuidadosa remoção da borracha original

Limpeza e polimento para fixação da borracha original

Em seguida, mais trabalhos estéticos foram feitos. Desta vez, partimos para a serigrafia faltante.

Limpeza do botão com serigrafia faltante

Processo de aplicação de novas inscrições

Serigrafia finalizada

Bem, era hora então de darmos um trato na madeira. Todo o gabinete teve seu acabamento refeito exatamente como era de fábrica.

Recuperação do gabinete em madeira

Os acabamentos do gabinete estavam oxidados e foram lixados e repintados.

Acabamentos em pintura

Agora vinha a parte mais difícil: o reparo eletrônico. Como sempre faço, o primeiro passo é conseguir o manual de serviço, a fim de termos em mãos todo o projeto do equipamento, para que possamos estudar seu funcionamento e então investigar as causas de um defeito. Procurei o manual por toda internet sem qualquer sucesso: somente está disponível o manual da segunda versão, que é totalmente diferente do MiniPro, que foi o único da série MX-5050 a usar toda a lógica por relés.
Nossa única solução foi enviar um e-mail a Otari e rezar para que eles pudessem nos ajudar. Infelizmente, recebemos a seguinte resposta:

"Bernardo, infelizmente este é um aparelho tão raro que nenhum dos engenheiros que ainda estão na Otari  sequer viu um deles. Pouquíssimas unidades foram fabricadas e não existe um manual de serviço para ele, sentimos muito."

Poxa, e agora? Teríamos de acrescentar mais umas 20h de restauro, pois iríamos ter de seguir metros e metros de fios amarrados, inúmeras chaves e sensores encadeados e muitos componentes eletro-eletrônicos,  para desvendarmos o circuito e desta forma interpretarmos a possível causa do defeito. Isso é o pesadelo de qualquer engenheiro, mas teria de ser feito: não existia outra solução.


Hora de desmontar tudo e fazer uma engenharia reversa

Equipamento em bancada para análise

Por eliminação, sabíamos que o defeito estava na placa de controle lógico. Resolvi focar nestes circuitos para desvendar o defeito. Mais de 8 horas de análise se passaram, até que eu tivesse um esboço básico de como os circuitos funcionavam. Pelo que imaginei, deveria haver uma pequena fuga em um dos SCR de controle, pequenos componentes eletrônicos presentes na placa 1749. 


Placa de controle


Remoção de componentes suspeitos

Como se tratava de uma pequena fuga, os componentes teriam de ser removidos um a um e testados individualmente, para que tivesse certeza de identificar o componentes correto causador da falha. Assim foi feito, até que... bingo!

SCR defeituoso

Encontramos o defeito, e por sorte se tratava de um componente relativamente comum e de fácil substituição, que sorte viu! A função PLAY e REC voltaram ao normal após os reparos, mas o gravador necessitava urgentemente de uma calibração e limpeza das cabeças. Porém, antes de calibrarmos, teríamos de reparar o eixo dos carretéis, pois a calibração exige a correta fixação dos caros carretéis de referência da MRL. Tentamos em vão encontrar substitutos, mas obviamente ninguém no mundo tinha um par deles. A solução foi recorrer ao nosso torneiro mecânico, que fez um EXCELENTE trabalho e deixou os danificados exatamente como eram como novos.

Prosseguimos com a calibração e tudo transcorreu bem. Precisávamos apenas instalar o gabinete de madeira já restaurado.

Gabinete em madeira restaurado sendo montado

Aparelho terminado... ficou lindo não ficou?

Por fim, temos um vídeo do gravador em testes após a calibração. Espero que tenham gostado de mais este restauro nosso, e continuem nos acompanhando pois em breve teremos mais novidades!




Um abraço meus amigos!

domingo, 16 de julho de 2017

Gravador de rolo Nagra IV-STC

Olá leitores e fãs de nosso Blog! Hoje temos uma restauração uma restauração diferente, pois chegou até nós um gravador de rolo Nagra!

Vou iniciar este post falando um pouco sobre o retorno dos magnéticos, ou talvez sua redescoberta no Brasil.

Gravadores de rolo sempre tiveram seu espaço em estúdios, para gravação e produção de masters. Não havia uma forma prática e de qualidade para se gravar áudio antes do surgimento dos meios magnéticos... grandes talentos não podiam ser facilmente gravados ou apresentados ao público pela falta de uma forma simples e barata de se gravar! Existiam os rolos de Edson e os discos de Shellac, mas nenhum desses meios era prático para se gravar ou regravar, até o surgimento dos meios magnéticos. Quando finalmente surgiram os gravadores em rolo, tornou-se fácil não apenas as produções profissionais, mas também gravações amadoras, sejam elas caseiras ou semi-profissionais. Os gravadores de rolo promoveram uma verdadeira revolução na música, seja em casa, nos estúdios ou nas rádios! Até hoje ainda existem muitos estúdios que querem aquele som quente e analógico, e para isso utilizam gravadores de rolo. Como bem sabemos, estes aparelhos também são muito amados por audiófilos, graças a sua qualidade ímpar. Como diz um amigo meu: 'Não existe sonoridade melhor que aquela dos meios magnéticos'.

Já há algum tempo os gravadores de rolo voltaram a despertar o interesse global, chegando ao ponto de considerarem o rolo como 'o novo vinil'. Recomendo aos nossos leitores que leiam estes dois artigos:



Este novo despertar dos gravadores de rolo trouxe até nós um gravador de rolo Nagra, modelo IV-STC. Para quem não conhece, estes pequenos e notáveis gravadores eram usados principalmente em gravações de áudio para filmagens, onde se exigia portabilidade, alta qualidade, e sincronização com vídeo. O Nagra IV rapidamente achou seu lugar neste meio, tendo sido muito utilizado ao redor do mundo. Hoje em dia, os Nagra passaram a ser desejados por audiófilos graças a suas enormes qualidades construtivas e por sua doce e maravilhosa sonoridade.

Se querem ter uma leve ideia da qualidade destes gravadores, basta reparar que os guias por onde passam as fitas são feitos em rubi. Sim, rubi, a pedra preciosa, para o menor atrito possível. A Nagra não poupou gastos no projeto dos Nagras. Rubis foram usados em relógios por séculos, como mancais de baixo atrito para os diminutos eixos das engrenagens. É claro, apenas relógios de grandes marcas usam rubis em suas máquinas, assim como a Nagra usou enormes rubis em seu maquinário de gravadores de rolo.

Pois bem, hora de prosseguirmos com nossos trabalhos... este é o Nagra que recebemos.

Nagra IV-STC

O aparelho só tinha problemas rs... não gravava, não reproduzia, mecanicamente o sistema de transporte não travava corretamente. Bem, ele ligava, mas só. De antemão já sabíamos que este Nagra tinha passado por outras mãos, que não conseguiram repará-lo. Muitas vezes a necessidade de peças raras torna os reparos financeiramente proibitivos. Será que seria este o caso aqui? Vamos descobrir.

Assim como em qualquer tipo de equipamento, o reparo em gravadores de rolo tem de seguir um certo planejamento básico: primeiro deve-se verificar e reparar os problemas mecânicos, para em seguida prosseguir-se às análises e reparos dos problemas eletrônicos. Já sabíamos que este Nagra apresentava ambos problemas, então iniciamos nossos trabalhos corrigindo as falhas mecânicas.

Falhas mecânicas

O Nagra, como o recebemos, não apresentava correto acoplamento da cinta da fita magnética com o cabeçote de gravação. Visualmente já identificávamos este problema, que era bem óbvio! Inspecionamos toda a mecânica e não encontramos nada faltando ou danificado... só nos restou acreditar que alguém já havia desmontado o aparelho antes e remontado sem o correto sincronismo do mecanismo interno.

O jeito é desmontar tudo! Começar do zero. Iniciamos removendo as correias e o motor.

Motor removido

Em seguida, prosseguimos removendo as outras polias e a cobertura do mecanismo de sincronismo.

Desmanche do sistema mecânico

Desmanche do sistema de alavanca

Desmanche da polia principal

Desmanche da proteção do sistema de sincronismo

Depois de desmontar todo o sistema mecânico, esperávamos ver um erro na montagem das engrenagens de sincronia, erro este que só poderia ter sido causado por algum curioso que trabalhou no aparelho antes de nós. Era a única explicação plausível para a falha que estávamos vendo...

Sim, definitivamente alguém desmontou e remontou tudo errado! As marcas vermelhas nas engrenagens da foto abaixo indicam como estavam as engrenagens antes do reparo. As marcas vermelhas se tocavam, o que é incorreto. O sincronismo correto é feito a partir de pequenos furos demarcados pela fábrica.

Sistema de sincronismo

Veja abaixo em detalhe as marcas de sincronismo de fábrica, e as engrenagens já removidas e reinstaladas em sua posição correta.

Sincronismo corrigido

Bem, agora o transporte funcionava adequadamente: bom wrap nas cabeças, velocidades, avanço e retrocesso em bom funcionamento. Já temos um aparelho em um estado que nos permite ir em frente para os reparos eletrônicos.

Falhas eletrônicas

Claramente estávamos lidando com um equipamento que passou pelas mãos de curiosos. Nesses casos, já sabemos que vamos encontrar muitos problemas ocasionados por terceiros, defeitos estes que não encontraríamos naturalmente em um aparelho original que apenas deixou de funcionar. Este aqui deixou de funcionar e foi totalmente fuçado, até que desistiram e deram o aparelho como irreparável.

Já sabemos que o aparelho não grava nem apaga as fitas nele colocadas. Claramente há algum problema no circuito de bias. A placa de bias foi  removida e avaliada.

Conseguem ver o problema? Tentem decifrar o que está errado na placa abaixo. É algo bem óbvio, mesmo para um olho destreinado...


Placa de bias

Se não acharam o erro, reparem bem abaixo do transformador de bias, a peça quadrada com vários pontos de solda... logo abaixo dela, faltam dois transistores! Exatamente os transistores de bias! Bingo. Novos transistores teriam de ser encomendados e instalados. Neste ponto do reparo, um técnico desavisado provavelmente apenas os substituiria por qualquer outro e pronto, imaginaria ter reparado o problema. Mas como somos experientes nestes restauros, já sabemos que se estavam faltando, tem algo errado...

Para prosseguirmos, é preciso antes:

1 - Encontrar o manual de serviço e descobrir quais os transistores originais usados. Não, não usaremos qualquer transistor. Manter a originalidade é essencial
2 - Descobrir porque deixaram a placa sem transistores. Provavelmente eles foram danificados por algum motivo, e o problema não deve ter sido sanado, já que não simplesmente substituíram por outros. Minha voz da experiência me diz que tem algo errado aqui!!

Bom, vamos nos concentrar no problema 1 inicialmente. 

Encontrar manuais de serviços hoje em dia deveria ser algo simples, e muitas vezes gratuito. Os manuais em grande parte já foram disponibilizados na internet por pertencerem a aparelhos descontinuados há muitos anos. No entanto, não existe manual de serviço disponível para os Nagra IV na internet (podem tentar achar!!). Não me restou opção senão entrar em contato direto com a Nagra.

Fomos surpreendidos pela notícia de que o manual de serviço não está disponível porque a Nagra ainda faz a manutenção nestes aparelhos!! Incrível! Mesmo após tantos anos, ainda existe demanda de uso e reparo destes gravadores. Esta foi uma boa e interessante notícia, mas a segunda notícia não era nada boa... a Nagra não mais vendia os manuais do modelo IV-STC. Até alguns anos atrás, era possível a compra do manual por pouco mais de 500 reais (um pouco caro, mas justificável). Infelizmente, já há alguns anos o manual não era mais comercializado.

Tive de trocar muitos e-mails para tentar achar uma solução, pois o manual de serviço era essencial ao reparo! Nos apresentamos como uma empresa especializada em reparos de vintage no Brasil, e conquistamos a confiança de quem nos ajudaria! Não, eles não nos venderiam o manual, mas pela metade do preço, abririam uma exceção e nos forneceriam acesso online ao manual em um de seus servidores. Era o suficiente para este reparo, e agradecemos pela ajuda :)

Bom, em frente. Já sabíamos qual transistor usar, mas permanecia a dúvida, porque quem fez o reparo antes não trocou os transistores, mas simplesmente deixou faltando? Esse tipo de situação sugere a um reparador experiente, que:

1 - Deve existir outro problema, que não foi solucionado. Os transistores ficaram queimando e o curioso simplesmente desistiu, deixando sem eles, para que o aparelho pelo menos ligasse.
2 - Se este era o caso, provavelmente acharíamos indícios de que o curioso trocou os transistores diversas vezes sem sucesso. Será? Vamos investigar...

As placas do Nagra são bem robustas, mas poderiam apresentar sinais de desgaste ou fluxo de solda dependendo da habilidade do curioso que trabalhou neste aparelho. Vamos ver.

Placa de bias - trace side

Vejam só! O curioso não apenas deixou marcas... ele destruiu as trilhas da placa de tanto que soldou e dessoldou os transistores, e no fim desistiu e deixou sem eles! Ele deve ter queimado pelo menos uma dúzia de transistores neste aparelho pelo visto.

Isso me indica que há um curto. O curioso não percebeu, e só viu que quando instalava os transistores, algo dava errado e o aparelho nem mesmo ligava (queimando o fusível) e rapidamente os transistores queimavam novamente. Ele acabou desistindo (depois de destruir a placa) e largou sem os transistores. 

Resolvi testar a teoria do curto, e, certamente, encontrei um curto direto ao ground na saída da placa de bias. Dada a lastimável situação do aparelho, resolvi continuar a análise visual do aparelho em busca de problemas óbvios para um olho treinado. Em poucos minutos achei alguns jumpers de configuração da placa de bias em desacordo com o manual de serviço.


Jumpers de bias

Os jumpers estavam configurados errado, mas isso não explicava o curto. Bem, de toda forma foram reparados... menos um defeito. Mas e o curto? Vamos por partes. O curto está na placa ou no resto do aparelho? Resolvi testar a placa individualmente conectada a uma fonte de bancada: tudo funcionou perfeitamente. o defeito estava no resto do aparelho! Poxa, agora complicou... já sei porque desistiram. Agora seria um desafio: existe um curto que pode estar em qualquer lugar do aparelho! Hora de inciar o tedioso trabalho de desmontar toda a eletrônica, isolar todos os componentes, e testar cada módulo individualmente até o problema ficar evidente.

Muitas horas de testes e muito suor depois... defeito encontrado! Existe um curto no sistema de timecode. uma análise ainda mais criteriosa revelou que um cabo coaxial oxidou internamente e entrou em curto, Um defeito dificílimo de se achar!! 

Conector com curto em um dos coaxiais

Conector desmontado para troca do cabo em curto

Ufa, curto misterioso solucionado! O problema de bias estava resolvido, mas haviam outros problemas a serem solucionados antes de um teste.

De cara, percebemos fios soltos e componentes pendurados. Acho que o curioso que trabalhou neste aparelho desistiu pela metade e devolveu ao dono pior do que recebeu!

Fios soltos

Mais uma consulta ao manual de serviços e descobrimos para onde esses fios deveriam ir. Um deles deveria estar conectado ao fusível, que foi removido completamente do circuito. Lembram-se da teoria de que o aparelho estava com a placa de bias em curto e queimando fusíveis? Este achado confirma esta teoria. Ok, tudo pronto hora de um teste!

Aparelho reconectado


Testes preliminares após reparos

Funcionou! Muito mal, mas funcionou. Neste ponto já sabíamos que o aparelho estava com todos os sistemas básicos funcionais, mas necessitava de uma reforma geral: troca de componentes fora de tolerância e recalibração geral com auxílio do manual de serviço! Mais umas 16h de trabalho e finalmente, tínhamos um Nagra em perfeito estado funcional em nossa bancada! Veja no vídeo abaixo nosso teste final do aparelho.






Espero que tenham gostado deste reparo! Este é um aparelho raro e merece uma restauração à altura. Um abraço meus amigos e até a próxima!