segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Reparo de um Integrado CARY 300SEI com válvulas 300B

Olá leitores do blog! Estou tirando o atraso de postagens de vários trabalhos feitos, que ainda não tinha tido tempo de postar. Vou fazer o possível para publicar algo novo pelo menos uma vez pela semana, a pedidos de alguns de nossos frequentadores assíduos :)


Desta vez recebemos um integrado Cary 300SEI, Single Ended com válvulas 300B na saída. Quem nunca ouvir, precisa ouvir as 300B, pelo menos uma vez na vida, pois são válvulas mágicas, de verdade!




Este chegou até nós com várias reclamações do proprietário:

  • Ruído de fundo elevado;
  • Pipocos, estouros e faíscas vindas de dentro do aparelho ao ligar;
  • Queima frequente de válvulas de saída 300B;
  • Instabilidade de funcionamento.

Acho que não preciso dizer que alguns destes defeitos são bem graves!! Muitos deles eram intermitentes, o que complica bastante o trabalho do restaurador, pois é necessário tempo para que o defeito se apresente e possamos diagnosticá-lo.

Este aparelho específico estava indo e voltando de técnico em técnico em SP, sem solução. O proprietário já estava muito chateado e até mesmo inseguro, e entrou em contato conosco explicando a situação. Tranquilizei-o confirmando que seríamos capazes de repará-lo sem dificuldades, solucionando todos problemas que há muito tempo assombravam este amplificador.

Este Cary tem uma ótima sonoridade, mas sua montagem interna (ponto-a-ponto) é bastante confusa e com um layout 'bagunçado', o que dificulta enormemente o reparo, pois, por dentro, é uma confusão só! Veja com calma a foto abaixa, que retrata como os modelos 300B da Cary tem uma montagem super desajeitada.

Cary 300B

Eu, como engenheiro, confesso que não sou grande fã desse tipo de montagem. A chance de componentes se soltarem, de uma fiação causar interferência em outra (gerando ruído), e a enorme dificuldade em se trabalhar em um aparelho assim são fatores que tornam este tipo de projeto mais problemático que montagens mais elegantes. Sou a favor do ponto-a-ponto, é claro, mas não este ponto-a-ponto bagunçado!

No caso do Cary que recebemos, cada um dos problemas era grave e foi diagnosticado com calma e atenção. Descreveremos cada problema e sua solução a seguir.


Ruído de fundo elevado
Por algum motivo a Cary optou por não usar cabo coaxial no caminho áudio, desde o conector RCA na traseira até o potenciômetro de volume na frente do amplificador!! Um erro grave de projeto. Este Cary nunca foi totalmente silencioso, mas a troca deste cabeamento reduziu o ruído de fundo em mais de 20dB! Além disso, grande parte do cabeamento era absurdamente longo, algo absolutamente desnecessário. Usaram o dobro do comprimento necessário e apenas o 'embolaram' em um cantinho.

Vejamos como o cabeamento estava originalmente:

Parte do cabeamento original

Reparem nos fios laranja e preto: eles são muito longos e foram embolados em um cantinho do chassi. Reparem o tamanho destes cabos quando foram removidos.

Cabos exageradamente longos

Pelas soldas e montagem estes cabos pareciam ser originais de fábrica, mas me assustou o enorme comprimento deles! Muitos cabos, muito grandes, embolados num canto: cabos de áudio, de alimentação, do circuito de mute. Tudo junto, enrolado de maneira deselegante em um cantinho.

Tivermos de remover todos, dessoldar, cortar e remontar de forma que tudo ficasse bem organizado., Vejam como ficou depois...

Cabeamento após reparos

Muito melhor concordam?

Em seguida resolvemos avaliar os cabos de áudio. Por algum motivo a Cary optou por usar fios comuns paralelos ao invés de um cabo coaxial com malha, para evitar contágio de ruído por campo magnético gerado por corrente alternada em fios vizinhos. Na nossa opinião, uma escolha ruim.

Iniciamos a avaliação removendo o potenciômetro de volume e chaves do painel frontal.

Desmanche para reparos de cabeamento

Foi nesse momento que encontramos os famigerados cabos paralelos para condução de áudio de baixa amplitude.

Cabos paralelos removidos

Removemos todos cabos paralelos e os substituímos por cabos coaxiais de qualidade. Como recompensa, o ruído de fundo caiu em mais de 20dB!! Inacreditável...


Pipocos, estouros e faísca vindas de dentro do aparelho ao ligar

Os estouros eram causados por outro erro na escolha de componentes internos. O primeiro estágio de filtragem de fonte possuía capacitores cuja tensão de trabalho era de 450V. O problema é que a tensão nestes capacitores chegava a 546V durante um curto período de tempo, período no qual as válvulas ainda estavam esquentando e não estavam ainda conduzindo corrente apropriadamente. Como resultado, estes capacitores não suportaram tal sobrecarga por muito tempo. Mais um erro de projeto da fábrica, sem dúvida.

Capacitor antigo de 450V (acima) e novos capacitores
 Gold Ruby de 700V (abaixo)

Reparem que a tensão chegava a 546V!!


Tensão excedida nos capacitores originais

Após a instalação dos capacitores de 700V, o amplificador passou a trabalhar com margem de sobra, como deveria ser desde o princípio!

Novos capacitores instalados, junto com dois 
current sharing resistors

Como sempre, não gosto de apenas 'consertar o que precisa para fazer funcionar'. Acho isso o típico trabalho mal feito, e isso explica porque tantos clientes meus reclamam de técnicos para os quais os aparelhos sempre ficam indo e voltando, e nunca ficam perfeitos. Isso acontece porque ninguém avalia os aparelhos COMO UM TODO. Apenas reparam o mínimo necessário (visando maximizar os lucros). O problema é que essa é uma visão que só maximiza os lucros a curto prazo. A longo prazo seu cliente ficará insatisfeito e nunca mais lhe dará mais reparos e restauros. Eu sempre olho tudo! E nessa investigação achei outro problema 'oculto'...

Reparem na foto abaixo os dois capacitores circulados em vermelho.

Capacitores suspeitos

Quem conhece, de cara reconhece que são capacitores Epcos nacionais. Até aí tudo bem, a Epcos é uma marca de renome, e alguém substituiu estes capacitores antes de mim... mas reparem que são capacitores de 100V. Agora vejamos a tensão aplicada neles...


Tensão medida nos capacitores

Entenderam o problema? Qualquer mínima varição de rede facilmente faria a tensão aplicada nestes capacitores ultrapassar os 100V, já que com 120V de rede ele já media 95.6V! Tudo bem, estava funcionando e dentro do valor permitido, mas estes capacitores eram pequenas bombas prestes a explodir no momento oportuno... teriam de ser trocados por valores com maior folga de tensão, e aqui também optamos por instalar capacitores importados Ruby Gold, de 350V.

Novo capacitor em processo de soldagem

Pronto, mais um problema solucionado! Hora de partirmos para o próximo.


Queima frequente de válvulas de saída 300B
Devido a constante troca de válvulas, os conectores dos soquetes afrouxaram a ponto de não mais promoverem um bom contato elétrico, além de apresentarem evidente oxidação. O resultado: diversas vezes as válvulas de saída perdiam o contato no pino de bias, resultando em excesso de corrente e sua consequente falha. Além disso, os capacitores de acoplamento originais apresentavam uma pequena fuga de corrente DC. Não era grave, mas a tendência deste tipo de defeito é sempre piorar. Neste ponto específico do circuito, capacitores de acoplamento com fuga DC alterariam o bias das 300B e causariam certamente sua queima, ou seja, tinham de ser trocados!!

Por ser um aparelho de sonoridade muitíssimo doce, não podíamos usar qualquer capacitor de acoplamento, e escolhemos PELO MELHOR DE TODOS. Capacitores NOS PIO Paper in Oil de 1000V e encapsulamento metálico.

Capacitor PIO novo


Em seguida todos pinos dos soquetes foram cuidadosamente lixados, limpos e tensionados.

Soquetes sendo limpos e tensionados


Instabilidade de funcionamento
Este era um problema causado pela soma dos outros anteriores, Quando todos os outros foram solucionados, tudo passou a operar dentro do esperado e sem surpresas!

Como o aparelho apresentava MUITOS problemas esporádicos, optamos por um longo período de burn-in e audição após todos reparos. O amplificador não apresentou problema algum e foi absolutamente aprovado :)

Mas, não acabou! Tem mais rs...

Além de todos reparos, restauramos algumas características originais que não mais estavam presentes no aparelho, provavelmente porque alguém que o reparou antes resolveu (por motivos desconhecidos) alterar o circuito original. Reinstalamos alguns capacitores de filtragem faltantes e um termistor de entrada de rede.


Capacitores faltantes reinstalados

Termistor instalado


Agora sim, acabou! Ufa :)

Reparo finalizado, testado, embalado, e devolvido em segurança ao dono. Mais um cliente e amigo satisfeito! Agradecemos pela confiança!

Até a próxima meus amigos!!



domingo, 21 de agosto de 2016

Sistema Hi-End Tri-Amplificado

Sim, o título não está errado! Resolvemos montar um sistema tri-amplificado, com nada menos que 5 amplificadores para um som estéreo! Imagino que a maioria de vocês nunca ouviu um sistema triamplificado, e este meu post tem exatamente o objetivo de despertar a curiosidade e incentivar todos vocês a experimentar novos arranjos e setups.

Primeiramente, muitos vão perguntar... para que isso tudo? Complicar a toa?? Pois a ideia não é complicar... apesar de ser o que parece. A ideia é exatamente o oposto, ter o caminho de áudio o mais limpo e claro para os diferentes conteúdos de frequências !!

Vou começar dando uma pequena explicação sobre como seu setup atual provavelmente funciona, se você usa um par de caixas e apenas um par de amplificadores mono ou um amplificador estéreo. Como sabemos, a maioria dos alto falantes não são capazes de reproduzir todas as frequências do espectro, de 20 a 20.000 Hz. Ou seja, usamos caixas de 2, 3 ou mais vias, separando este espectro em faixas, onde cada alto falante será responsável por reproduzir uma pequena parte deste espectro de frequências... mas você sabe quem 'divide' o espectro, enviando apenas uma parte do áudio para cada alto-falante? Chama-se crossover, e a maioria de nós usa o crossover embutido em nossas caixas acústicas, chamado de crossover passivo.

Chegou a hora de falarmos sobre crossovers. Pegue uma pipoca e continue lendo, prometo que será interessante :) Não quero ser técnico demais, quero apenas explicar o básico sobre crossovers, pois é uma contextualização importante para a compreensão geral deste artigo.

Existem dois tipos de crossovers: ativos e passivos. O crossovers passivos usam somente componentes passivos e não necessitam de uma fonte externa de alimentação para funcionamento. São estes crossovers que você possui embutido dentro de suas caixas acústicas, e provavelmente é este que você está usando neste exato momento para separar as diferentes frequências em seu sistema. São crossovers que trabalham com alta potência, pois atuam no sinal de saída do amplificador.
Por outro lado, temos os crossovers ativos, que são alimentados e, dentro da cadeia do áudio, são inseridos entre o pré e o(s) power(s), e por este motivo, não usam componentes de alta potência.

Crossover Passivo

Crossover Ativo Valvulado Luxman


Como disse antes, não quero ser muito técnico, e me limitarei a dizer que crossovers ativos são infinitamente superiores aos crossovers passivos. Ao se remover o crossover passivo, conectamos os falantes diretamente ao amplificador, permitindo que este trabalhe com controle total sobre o falante, eliminando todos os efeitos danosos provocados por este circuito intermediário de potência.

Se quiser ler mais sobre o assunto, e as diferenças reais e as explanações técnicas do porque dos grandes benefícios dos crossovers ativos, recomendo a página de Rod Elliott em inglês: http://sound.westhost.com/biamp-vs-passive.htm

Pois bem, a grande vantagem de se biamplificar ou triamplificar, é ELIMINARMOS completamente o crossover passivo das caixas e o trocarmos por um ativo. Em um sistema tri-amplificado, de 3 vias, é possível removermos totalmente as grandes limitações dos crossovers passivos e criarmos um sistema absolutamente superior aos tradicionais que estamos costumados a ouvir!

Pois foi o que fizemos. Já fazia muito tempo que eu planejava mentalmente me aventurar na montagem de um setup tri-amplificado, combinando alguns falantes e componentes que sempre me deram muito prazer na audição mono ou bi amplificada. Porque não, então, juntar tudo em um só? Muitos vão achar doidice, loucura... chamem como quiser. Estou aqui para experimentar, afinal, não é assim que se chega onde ninguém chegou antes?

Sempre gostei dos agudos dos tweeters ElectroVoice T350, dos médios das B&W e dos graves da JBL. Então, que tal somar tudo? Resolvi usar:
  • Tweeter ElectroVoice T350
  • Caixa B&W 685
  • Caixa JBL 4507
Para os powers, sempre gostei dos agudos dos Quad II, os médios dos McIntosh MC30 e os graves de um amplificador solid state nosso, que comercializamos no passado. Mais uma vez, vamos juntar tudo:
  • Par de monoblocos Quad II
  • Par de monoblocos McIntosh MC30
  • Power Estéreo Regence Audio SSA-01
Mas... qual crossover ativo utilizar? Eu não queria muitos transistores no caminho do áudio, então, optei por importar um crossover valvulado Luxman A2003, de 3 vias. Ideal para este setup!!

Por fim, escolhi como pré o Marantz 7, meu preferido de todos os tempos. Agora era só montar tudo... certo? Facinho...

Ou não! Ajustar o sistema todo foi uma trabalheira inimaginável. Primeiro tive de medir o SPL de cada um dos falantes, para depois calcular os ganhos individuais para cada via. Depois, tive de conferir e checar a fase de cada uma das vias, para garantir que tudo estaria em fase. Por sorte o Luxman permite inverter individualmente cada fase se necessário, uma mão na roda. Feito tudo isso com instrumentação específica, era hora de ouvir e fazer o ajuste fino. Mais uns 10 dias de mudança, melhoras, pioras, trocas... ufa! Confesso que foi um ENORME aprendizado. Deu muito trabalho mas valeu a pena!





Terminado e funcionando, era hora de convidar alguns amigos músicos para ouvir o setup... o pessoal enlouqueceu! Realmente surpreendeu. É um setup muito complexo de ser feito, que exige mais experimentação que muitos outros (pois possui uma infinidade a mais de parâmetros para serem ajustados), mas afirmo que vale a pena o esforço, pois o resultado compensa!

Portanto, convido a todos a experimentar. Experimente válvulas diferentes, setups diferentes, abra sua cabeça ao novo, até você encontrar aquele sistema que te tira do mundo real e te conduz para dentro da música. 


Happy Listening!



domingo, 14 de agosto de 2016

Audio Research SP-6

Amigos, um novo aparelho chegou até nossas mãos!

Recebemos um Audio Research SP-6 para um revisão geral. O aparelho estava funcionando, mas já não passava por revisão há muito tempo, apresentava um leve odor de queimado quando ligado e os controles estavam ruidosos.




O primeiro passo, sempre que recebo um equipamento, é abrir e fazer uma análise visual. Como já trabalho há muitos anos com estes equipamentos e possuo muitos deles em minha coleção particular, sei exatamente como deveriam ser originalmente, e procuro por modificações e componentes trocados. Como no Brasil não temos quase nenhuma mão de obra especializada em valvulados Hi-End, inúmeras vezes me deparo com aparelhos totalmente "gambiarrados", consertados por técnicos de esquina que nunca trabalharam em um valvulado.




Só de bater o olho, já vejo alguns componentes trocados: um regulador da fonte, capacitores eletrolíticos, alguns de acoplamento e a placa temporizadora. Nada grave para um aparelho desta idade. Costumo criticar os trabalhos prévios executados em grande parte dos aparelhos que recebo (pois só me aparece "gambiarra" rs...), mas no caso deste aqui, quem o executou está de parabéns. Um trabalho limpo e organizado, como deve ser. Infelizmente o executor deste reparo não deixou nenhuma marca ou etiqueta, para que eu o elogiasse abertamente por aqui... se você ler este post, identifique-se!

Hora de verificar as válvulas. Sempre que recebo um aparelho testo todas as válvulas e verifico  o fabricante, a origem e a qualidade, para sugerir eventuais upgrades ou trocas em caso de defeito. Conheço todas as válvulas já fabricadas, modelos, fabricantes, país e cidade de origem, estrutura interna, distribuidores, etc. Quem entende de válvulas sabe que todos este fatores são muito importantes para se definir a qualidade de uma válvula NOS!




Uma rápida análise indica que estas  são válvulas Hoges. A Hoges era uma empresa Alemã que não fabricava, mas apenas distribuía válvulas. A estrutura interna revela que esta válvula foi fabricada pela Ei, depois da compra do maquinário da Telefunken. É uma válvula Ei Smooth Plate, excelentes válvulas e todas com boa transcondutância. Nada a ser feito aqui.

Continuando a análise percebi que o circuito de temporização foi refeito, pois não era original. Apesar de ter sido feito em uma placa perfurada padrão, mais uma vez quem fez este trabalho foi cuidadoso! Trabalho limpo e bem feito. O tempo de fechamento do relé foi aumentado em relação ao tempo original, o que não é problema, a menos que o proprietário seja muito impaciente :).




Chegou a hora de atacar os problemas conhecidos!

Neste momento, sempre ligo o equipamento com um VARIAC, enquanto monitoro tensões chave do circuito. Se algo estiver errado, posso perceber antes que algum dano pior aconteça.

O odor de queimado estava sendo causado por um resistor de fonte, que é usado para reduzir a tensão entregue a um regulador da fonte, evitando-se assim superaquecimento e falha do regulador, Apesar de original, este resistor já estava fora de tolerância em mais de 30% e foi trocado.




Todos os controles e chaves foram cuidadosamente limpos com um produto próprio para essa finalidade. Queria aproveitar este momento para frisar que JAMAIS, JAMAIS, EM CASO ALGUM deve-se usar WD40 na limpeza de chaves e potenciômetros. Apesar de funcionar no curto prazo, o WD40 poderá a longo prazo danifiar partes internas dos potenciômetros, tornando o aparelho totalmente inutilizável e, em caso de alguns vintages, irreparável. Fica a dica!

Em seguida os conectores traseiros foram limpos e foi feita uma limpeza geral interna e externa. Alguns conectores não eram mais originais, mas a troca foi bem feita. Eu trocaria todos, mas essa não parece ter sido a escolha do restaurador anterior.




Por fim, fizemos nossa tradicional audição de 8h seguidas para garantir o perfeito funcionamento e sonoridade, e o equipamento foi enviado de volta a seu dono! Tudo perfeito!




Até a próxima meus amigos!









terça-feira, 3 de maio de 2016

Upgrade em Pré Conrad Johnson PV10AL

Olá leitores! Acredito que este será um post bem interessante, por se tratar de um upgrade. Raramente posto sobre upgrades por aqui, mas este pré em especial mereceu um post!

Há muito tempo que conheço os prés da Conrad Johnson, em especial os PV10, muito comuns no mercado brasileiro, por serem prés valvulados relativamente baratos. Curiosamente, estes prés nunca me impressionaram em termos de sonoridade... muito pelo contrário! Sempre achei eles muito fraquinhos. As altas sempre me incomodaram e sempre foi extremamente fatigante ouvir estes aparelhos.

Pois bem, há algum tempo recebi um Pré Conrad Johnson PV10AL para upgrade. O proprietário reclamava que, apesar de gostar da sonoridade, o pré era muito 'brilhante' (nenhuma novidade até aqui). Resolvi ouvir o pré em seu estado original primeiro. Não precisei ouvir nem 5 minutos para comprovar o que já sabia: faltava corpo nas vozes e os agudos incomodavam absurdamente. Não sei como a Conrad Johnson projetou e vendeu algo assim, e como alguns ainda podem gostar deste pré em seu estado original

O próximo passo então é traçar a curva de resposta do pré, antes do upgrade, para ver se ela comprova o que nosso ouvido já nos indicava. Será?

Todas as curvas foram traçadas por um medidor de resposta em frequência computadorizado, dentro do prazo de calibração.

Curvas de resposta antes do upgrade


Canal direito


Canal esquerdo


Bingo!! Reparem que a saída em 20 kHz já está 3 dB acima da saída em 1 kHz. Isso é um exagero! E vejam que a saída começa a subir em 2 kHz... ou seja, todas as altas frequências apresentam agudos de 1 a 3 dB mais altos que as frequências mais baixas.

A banda passante do pré é muito boa. Veja que ele responde até acima dos 100 kHz. Muitos audiófilos vêem isso como um grande benefício, mas, a verdade é que não ouvimos nada acima dos 18 a 20 kHz. A vantagem de ter uma resposta PLANA até 100 kHz é que desta forma sabemos que em 20 kHz ela ainda estará plana, sem perdas ou ganhos, o que evidenciaria uma boa resposta em frequência.

Além disso, sabemos que resposta em frequência não é tudo. Na verdade, não é quase nada, visto que a resposta em frequência é apenas uma de inúmeras análises que devem ser feitas para se interpretar a sonoridade resultante de um sistema. No entanto, para este upgrade, a resposta em frequência é essencial, pois o principal fator evidenciado durante as audições eram os altos ganhos nos agudos.

Além do pré naturalmente apresentar uma resposta em frequência exagerada em altas, ele chegou até nós com válvulas fabricadas pela Ei com maquinário Telefunken, famosas pelos pronunciados agudos. Estas válvulas não são indicadas para uso neste aparelho e é por este motivo que sempre fornecemos uma consultoria na escolha das válvulas, de acordo com o sistema e com preferências e expectativas do usuário.


Pré antes do upgrade


O upgrade

Como todo upgrade, primeiro deve-se ouvir a expectativa do cliente, além de ouvir o aparelho em questão no sistema que será usado e tentar claramente estabelecer objetivos do upgrade, definindo-se o que deve ser feito. Todo upgrade é um tipo de customização para que um aparelho melhor atenda os anseios de seu proprietário.
Como sempre faço, optei por modificar levemente o circuito de forma que fosse possível reduzir os ganhos em alta, e, preferencialmente, limitar a resposta após os 20 kHz. Muitos sistemas e até caixas são capazes de reproduzir até os 30 kHz ou mais. Apesar de não ouvirmos sons nesta frequência, conteúdos nesta região espectral podem causar fadiga, e já vi sistemas oscilarem nestas frequências. Além disso, os sistemas que para mim (e para todos adoradores de Western Electric e Altec e outros vintage), os sistemas que soam mais naturais são aqueles que não respondem muito além dos 16 ou 18 kHz. Talvez porque minha audição é muito sensível a altas frequências, ou talvez porque realmente a maior presença de médios, frequências nas quais estamos evolutivamente mais sensíveis, tornem a sonoridade mais orgânica e mais suave. Fato é que a sonoridade dos Altec 604 e outros sistemas vintage apresentam uma macrodinâmica fabulosa, devido a inúmeros fatores, que não se limitam à resposta em frequência. Esta discussão poderia render infinitamente, muitos discordarão e outros concordarão, até porque existe o fator preferência pessoal e memória psicoacústica, que são fatores individuais. Não há verdade absoluta, mas expresso aqui minhas preferências. Além disso, o cliente usava caixas que sabidamente exagerem nos agudos e seu sistema, claramente, exagerava nas altas ao ponto de incomodar.

Continuando, optei então por upgrades fáceis de serem desfeitos, simples de serem implementados, e que limitem o ganho em altas e a resposta em frequência. Gosto muito dos médios das válvulas 12AY7 e me decidi por sugerir estas válvulas como upgrade.

Inicialmente estudei o circuito original para decidir os upgrades necessários.


Circuito original PV10AL


Em seguida as modificações foram planejadas e executadas.


Pré após upgrades

Curvas de resposta após upgrade


Bom, não adianta nada postar aqui o upgrade sem uma resposta de frequência mostrando que algo mudou certo? Espero que tenha mudado da forma esperada! Vamos ver?


Canal direito

Canal esquerdo


Vejam que o circuito final ficou com resposta em ±1 dB entre 20 Hz e 20 kHz, além de uma queda em altas, ao invés de subir indefinidamente, como era antes. Vejam que foi implementada uma curva de preferência, conforme os requisitos definidos anteriormente. Sucesso total!

Mas... agora vem o teste do ouvido, certo? Tocou melhor? Na minha opinião, MUITO MELHOR. Algo que eu odiava, tornou-se muito agradável. Mas será que o cliente vai gostar? 

Estava presente quando o cliente ouviu este pré pela primeira vez depois do upgrade... confesso que eu devia ter filmado a reação, pois ficou marcada em minha memória. Foi difícil convencê-lo que era o mesmo pré! Palavras do proprietário: "Nunca fiz melhor investimento na vida!". Provavelmente um exagero devido a emoção do momento, mas tenho de confessar que o pré mudou completamente.

Todos estes gráficos de nada servem se nosso ouvido não aprovar. Nossos sistemas não usados para ouvir música e não há melhor equipamento de teste que nossos ouvidos e nossa satisfação.

Aproveito o post para enfatizar a necessidade de bons equipamentos de teste. Veja o quanto um Analisador de áudio computadorizado ajuda para se efetuar upgrades certeiros, Conheço muitos 'técnicos' que fazem upgrades por chute: saem trocando aleatoriamente peças originais por outras mais caras. O resultado? Um elevado custo para o cliente e um resultado muitas vezes decepcionante ou mesmo catastrófico!
Para este upgrade, a principal ferramenta usada foi um Analisador de Áudio da Keysight.

Grande abraço e até a próxima!


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Raríssimo par de pré amplificadores Scott 121-C

Olá amigos! Começamos 2016 tão atarefados que só agora pudemos criar um novo post. Como este é o primeiro do ano, será uma restauração bem especial e bem complexa!
Este post é dedicado aos que amam o som do vinil tocado por uma raridade: os Scott 121-C.

Recebi recentemente um par de pré amplificadores absurdamente raros, os Scott 121-C. Para quem não conhece, estes são considerados como o Santo Graal para quem coleciona Vinil. São prés extremamente bem construídos, que custavam uma fortuna na época. Neles utilizou-se os melhores materiais disponíveis e eram o topo de linha da Scott em seu tempo.

Estes prés possuem um circuito muito interessante, chamado Dynaural, que era exclusivo da Scott. O circuito Dynaural dividia o áudio em duas bandas e o processava separadamente, removendo ruídos e estalos do disco, sem prejudicar a qualidade. Além disso, estes foram os únicos prés comerciais com equalização analógica contínua. Isso significa que ele é capaz de equalizar qualquer disco já fabricado: um sonho para os amantes e colecionadores de vinis. Mesmo para padrões modernos, este pré possui funções extremamente avançadas que não se encontra hoje em nenhum pré de phono.


Scott 121C

O par que recebemos estava em estado de sucata, infelizmente. Chegou faltando peças, totalmente modificado e, obviamente, não funcionavam. Na verdade, nos questionamos se valia  apena restaurar ou se era melhor simplesmente descartá-los. No caso destes, o proprietário queria que fossem restaurados a despeito do elevado custo. Ficamos felizes em poder trazer de volta a vida estes prés icônicos e aceitamos o desafio!



Aparelhos no estado em que recebemos

Como pode ser visto nas fotos acima, os aparelhos chegaram em péssimo estado. Faltavam Knobs, válvulas, e até mesmo as tampas em alumínio de baixo e laterais. Uma análise rápida evidenciava que alguém no passado tentou reparar estes dois prés, mas desistiu. Curiosamente, me parece que, apesar de serem um par (com números de série próximos), dois restauradores diferentes se aventuraram neles, pois as peças usadas em um eram totalmente diferentes daquelas usados no outro. Além disso, existiam peças faltantes, fios cortados no interior, potenciômetros e chaves com defeito, muita ferrugem, muitas peças não originais... um caos completo.

Por algum motivo que não sei descrever, um dos prés estava com o fio da tomada cortado, enquanto o outro possuía dois fios de tomada conectados em seu interior. Como eram os fios originais, só posso concluir que alguém fez uma gambiarra absurda nestes prés: ao invés de manter as duas tomadas, preferiu emendar ambos fios dentro de um pré para ligá-los juntos. Que absurdo! Realmente tem que ser muito ignorante para se fazer algo assim: cortar os fios e emendá-los apenas para economizar uma tomada de parede.

Dois cabos de força saindo de um pré

Além disso, faltavam ainda os porta fusíveis originais, Knobs traseiros e frontais... realmente estes prés foram depenados e largados por muito tempo para estragarem completamente. Uma tristeza. Um dos prés possuía o transformador original (totalmente enferrujado) enquanto o outro possuía um transformador Willkason nacional.

Restaurações como esta exigem um planejamento muito bem estruturado, ou então perde-se muito tempo e, se não tivermos muito cuidado, o equipamento pode nunca voltar a funcionar adequadamente. Alguns detalhes que a maioria dos restauradores não observam fazem uma enorme diferença no resultado final. São segredinhos que ninguém conta, mas vou revelar alguns para vocês neste post.

Um dos principais cuidados que se deve tomar ao restaurar equipamentos é tirar MUITAS fotos, para se assegurar que até mesmo a cor e o roteamento dos fios no interior sigam o esquema original. É óbvio que a cor dos fios não alterará a sonoridade , mas manterá a originalidade visual no interior. Já o roteamento dos fios tem um enorme impacto no desempenho final do aparelho. Cada fio interno segue uma rota definida, e a alteração desta rota pode ocasionar um aumento no ruído de fundo do aparelho, dependendo de onde cada fio passar. É essencial tirar fotos para que a remontagem permaneça fiel ao que a Scott executou e planejou. No entanto, no caso deste par de prés aqui, fotos eram inúteis, já que nada no interior estava original. Tivemos de executar uma pesquisa enorme, conseguindo os documentos originais de montagem e layout, além de conseguirmos fotos em alta definição destes aparelhos, que nos ajudariam no processo de restauração.

Como os problemas eram muitos, vamos resumir  um pouco e detalhar aqui apenas os problemas mais relevantes encontrados:

1- Falta de peças originais (tampas em alumínio)
2- Circuito original modificado 
3- Componentes internos defeituosos
4- Transformador de força não original
5- Capacitores eletrolíticos defeituosos
6- Sujeira e Ferrugem
7- Fios cortados no interior
8- Knobs e parafusos faltantes

Vamos agora detalhar cada um destes problemas de maneira resumida.

1- Falta de peças originais (tampas em alumínio)

Os aparelhos chegaram até nós faltando tampas inferiores e superiores (do painel). Provavelmente alguém tentou consertá-los, desistiu na metade do caminho, e perdeu as peças originais. Novas reproduções foram feitas, ficando exatamente idênticas ás peças originais:

Sabe me dizer quais as originais e quais as réplicas?

Como somos muito perfeccionistas, até os rebites antigos foram copiados e refeitos para que fosse impossível a qualquer pessoa diferenciar a tampa original da reprodução criada!

2- Circuito original modificado 

Durante o planejamento e execução da restauração, sempre comparamos o circuito original com o esquema de fábrica da Scott, para desfazermos qualquer modificação feita posteriormente por outro restaurador. No caso destes Scott, encontramos uma infinidade de modificações, e vamos escrever aqui sobre algumas delas.


Problema 1 - Resistor flutuante

Aqui vai uma trívia: observe a imagem abaixo e nos diga o que está errado.


Resistor flutuante de 4R7

Pois é, o resistor de 4R7 / 1W acima está flutuando. Hão há nada conectado em uma das extremidades! Alguém resolveu modificar o circuito e excluir o resistor. Tivermos então de refazer a fiação e tudo foi ligado conforme esquema original. No caso deste resistor, fazia parte do circuito de alimentação dos filamentos de válvula (que nestes aparelho, usa tensão contínua).

Problema 2 - Modificações na fonte

Por algum motivo (talvez indisponibilidade de peças), resolveram substituir resistores da fonte por valores incorretos, além de removerem da fonte resistores de filtragem passa baixa.

Fonte estava modificada

As modificações foram todas desfeitas e novos componentes foram instalados exatamente como o esquema original.

Fonte sendo remontada conforme esquema original


Problema 3 - Fio de ground cortado

Em um dos prés, o terminal de ground do RCA de saída estava sem conexão. Talvez tivessem encontrado um ground loop e cortaram o ground no terminal ao invés de procurar e reparar a causa raiz do problema.

Terminal RCA sem ground

Tudo foi reconectado como deveria ser.


3- Componentes internos defeituosos

Este foi o problema que mais nos deu trabalho. Os aparelhos estavam LOTADOS dos famigerados capacitores Cherry nacionais, famosos por apresentarem fuga e alta ESR (resistência em série).

Capacitores nacionais

Normalmente a troca de capacitores em prés não é absurdamente onerosa... exceto em alguns casos como estes Scott, onde cada aparelho possui 31 capacitores!! A título de comparação, podemos citar o Pré OddWatt Audio, que possui apenas 2 capacitores de acoplamento. A Scott aqui não poupou custos e criou um pré com tantas funções tão avançadas que necessitou investir alto em componentes.

Todos os 62 capacitores (31 em cada pré) tiveram de ser trocados. Para a troca, vou revelar a vocês o primeiro segredo dos restauradores perfeccionistas: testar cada um dos capacitores novos a serem instalados. Mas não é um teste comum e simples: para cada capacitor que instalamos, testamos por capacitância, ESR, fuga e localização do outside foil. Somos a única empresa de restauração do Brasil que executa estes testes, que são essenciais para a perfeita operação do aparelho a ser restaurado.

Para quem não sabe, capacitores de acoplamento não possuem polaridade. No entanto, isso não significa que podem ser instalados em qualquer orientação. Estes capacitores possuem uma diferença entre seus terminais, conhecida por outside foil, sendo que este terminal deve ser sempre conectado no ponto de menor impedância. Testamos cada capacitor um a um para determinar o outside foil antes de instalarmos no aparelho.

Teste de capacitores

Repare que na imagem acima, os capacitores a direita já foram testados e receberam uma marca que indica o outside foil.

Novos capacitores sendo instalados

Todos os 62 capacitores foram trocados.


4- Transformador de força não original

Logo que recebemos os aparelhos, identificamos que um dos transformadores de força não era original e havia sido trocado por um nacional. Este fato, por si só, não seria um grande problema, desde que este transformador refeito seguisse exatamente as especificações do original. Só de bater o olho, já dava para perceber que não era o caso: o transformador refeito não possuía a blindagem em cobre que o original possuía.

Transformador não original

Sempre digo que nosso trabalho exige muitas horas de investigação, e aqui não foi nada diferente. Para nós, já estava claro que teríamos de confeccionar uma réplica dos transformador de força original, mas valia a pena testar este aqui para ver se eletricamente atendia os requisitos do pré. Curiosamente, não atendia nem de perto!

Os Scott 121-C utilizam tensão DC nos filamentos das válvulas, para evitar ruídos induzidos. Para isso, uma tensão de 25VAC é retificada e usada em várias válvulas com filamentos em série. Acreditem ou não, o transformador acima não possuía taps para 25VAC! O tap que estava conectado ao retificador de selênio, que deveria suprir 25VAC, somente fornecia 7VAC!

Transformador incorreto instalado

Isso significa que as válvulas deste pré estavam operando com uma tensão absurdamente baixa em seus filamentos! Este foi um erro grosseiro cometido pelo último restaurador, que claramente não entendia como o circuito funcionava. Ele podia, por exemplo, ter colocado os filamentos em paralelo e usado este transformador, mas não o fez! Simplesmente manteve tudo em série e conectou uma tensão que era menos que 1/3 do que o circuito exigia. Nota zero para quem fez isso!

Uma réplica exata do transformador de força original foi feita, e este transformador Willkason foi descartado.

5- Capacitores eletrolíticos defeituosos

Este é, com certeza, o defeito mais comum que vemos em restaurações de equipamentos vintage. Os eletrolíticos ressecam e oxidam, perdendo sua funcionalidade.

Muitos restauradores no mundo inteiro (praticamente todos) apenas inutilizam os eletrolíticos originais e os mantém presos ao chassi apenas para manter a aparência original, instalando novos escondidos embaixo do chassis. Nós, na Regence Audio, não gostamos dessa prática e preferimos restaurar os capacitores originais, primeiramente tentando trazê-los de volta em um processo super lento (de mais de 30 dias para cada capacitor multi-seção) de reforma dos eletrólitos. No caso de capacitores muito deteriorados, isso não é possível. Mesmo neste caso, nós preferimos restaurar os capacitores originais instalando correspondentes modernos em seu interior, a fim de manter a originalidade absoluta do aparelho.

No caso deste Scott, realizamos a abertura individual de cada um dos eletrolíticos, processo este que foi repetido para as 18 seções presentes. Muito trabalho!!

O primeiro passo é cortar o invólucro de alumínio do capacitor eletrolítico e remover todo seu interior.

Capacitor eletrolítico aberto

O segundo passo é limpar tudo e fazer minúsculos furos na base removida, por onde os terminais do novo capacitor se soldarão aos terminais do antigo capacitor.

Furos na base do capacitor

O terceiro passo é escolher os capacitores a serem usados e corretamente fixá-los na sequência correta, soldando os terminais destes capacitores entre si. Para fixação, sempre usamos fita de cobre ou alumínio. Os capacitores de alta tensão escolhidos foram os Panasonic de 105C, fabricados no Japão.

Capacitores montados com fita de alumínio

O quarto passo envolve passar os terminais do novo conjunto de capacitores pelos furos feitos no segundo passo, soldando-os aos antigos terminais da base do capacitor original. No caso destes capacitores da foto, usamos os Panasonic 105C fabricados no Japão em conjunto com capacitores Samsung 105C.

Montagem dos novos capacitores no invólucro original

Por fim, no quinto e último passo, ambas partes do invólucro original são lixadas, coladas e fita de alumínio é usada para o acabamento final. Está pronto! é trabalhoso, mas no final, temos o capacitor original em perfeito funcionamento e pronto para ser novamente instalado no chassis.


Capacitor original completamente reconstruído

Não conhecemos nenhum restaurador profissional no mundo que se dê ao trabalho de fazer este tipo de reconstrução de capacitores, devido às muitas horas e o alto custo de mão de obra. No entanto, escolhemos sempre esta prática para manter a originalidade e garantir um trabalho limpo e bem executado. Muitas vezes, a opção pelo mais barato sai muito mais caro a longo prazo!

Todos este trabalho foi feito com as 18 seções de eletrolíticos presentes nos Scott 121-C, pois todos estavam totalmente ressecados e inoperantes.

6- Sujeira e Ferrugem

Sujeira e ferrugem são um problema antigo e conhecido nestes equipamentos que ficam por muitos anos parados e sem uso. Estes Scott parecem ter sido deixados mal armazenados por muitos anos, e ficaram bastante judiados.

Primeiramente removemos o transformador original para uma limpeza e repintura.

Transformador original

É importante lembrar que é necessário remover TODA a ferrugem antes da pintura. Pintar por cima só encobrirá o problema por poucos meses ou anos e de nada adiantará! No caso de transformadores, precisam ser desmontados e cada lâmina EI deve passar por um processo de limpeza.

Transformador após pintura

Os chassis também estavam absurdamente sujos e oxidados. Os chassis destes aparelhos são de alumínio e não podem ser usados neles abrasivos, pois riscariam e prejudicariam o visual original. Foi preciso ser feita uma limpeza manual com produtos específicos. Já tentei de tudo que se encontra no mercado nacional, mas nada nunca deu um resultado tão bom quanto os produtos importados para limpeza automotiva. Apesar da enorme demora para se importar estes produtos, o resultado compensa!

Sujeira e ferrugem

Chassis sendo limpos

Por nós, nada passa despercebido. Cada uma das porcas que prendem os potenciômetros (mais de 60 destas) foram lixadas a mão, polidas e limpas!

Arruelas antes e depois da limpeza

Limpar tudo foi extremamente trabalhoso, mas o resultado valeu a pena :)


7- Fios cortados no interior

Esta é uma parte do trabalho muito investigativa. Quando recebemos aparelhos que claramente já foram modificados por outros, temos de investigar e analisar cada ligação interna para nos certificarmos que tudo está em ordem. São gastos dias, com um checklist enorme de verificações a serem cuidadosamente analisadas e testadas, a fim de tentarmos evitar que qualquer mínimo problema passe despercebido. No caso destes Scott, existiam problemas sutis e muito bem escondidos, enquanto outros eram muito óbvios.

Fios na fonte emendados com fita crepe

Cabos da chave de power cortados

Encontramos inúmeros problemas de fios cortados, mas não vamos relatar todos aqui. Basicamente seguimos e analisamos todas as conexões conforme esquema e refizemos tudo da forma como deveria ser, substituindo fios de cor errada ou peças defeituosas durante esta análise.

8- Knobs e parafusos faltantes

A falta de knobs originais é sempre um grande problema. Réplicas dos knobs originais podem ser usinadas e um processo de acabamento novo pode ser feito (neste caso aqui, a anodização do alumínio para dar a cor dourada). O grande problema é que, claramente, os knobs parecerão muito mais novos que o restante da peça, deixando óbvio que algo foi feito.

Para sanar este problema e tentar manter o visual original, optamos por usar nossa rede de contatos nos EUA para localizar e importar knobs originais antigos para o aparelho. Foram importados tanto os knobs traseiros em baquelite fabricados pela Chicago Co. quanto os de alumínio frontais faltantes. O úncio problema é que, mitos knobs em alumínio, apesar de terem vindo com o aparelho, chegaram até nós falntando os minúsculos parafusos que o prendem ao eixo do potenciômetro. E, para piorar as coisas, no caso destes aqui, o passo da rosca não era padrão!!

E agora????

Calma, usinamos novos parafusos e ficaram perfeitos :)

Knob original e parafuso de fixação usinado

Reparos finais

Tudo estava pronto, terminado e conferido. Agora era hora de instalar válvulas New Old Stock e ouvir. Sempre, em todos nossos reparos, executamos uma audição de pelo menos 8h seguidas em cada aparelho. O objetivo disso é garantir que tudo está realmente funcionando como deveria e que, o uso prolongado não trará surpresas. Estes Scott ilustram bem a necessidade deste procedimento que adotamos: após tocarem bem por cerca de 3 horas, um dos aparelhos começou a apresentar um forte ruído de fundo.

Novamente desmontamos o aparelho e encontramos um resistor de placa ruidoso:


Resistor defeituoso encontrado durante audição

Feito o novo reparo, reiniciamos nossa audição de 8h seguidas, que transcorreu sem problemas! Os prés estavam terminados e prontos para devolução ao proprietário!


Aparelhos terminados

Até a próxima meus amigos, e espero que tenham gostado da postagem longa! Para quem gosta dos vintage valvulados, tenho certeza que foi uma leitura interessante :)

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