domingo, 16 de julho de 2017

Gravador de rolo Nagra IV-STC

Olá leitores e fãs de nosso Blog! Hoje temos uma restauração uma restauração diferente, pois chegou até nós um gravador de rolo Nagra!

Vou iniciar este post falando um pouco sobre o retorno dos magnéticos, ou talvez sua redescoberta no Brasil.

Gravadores de rolo sempre tiveram seu espaço em estúdios, para gravação e produção de masters. Não havia uma forma prática e de qualidade para se gravar áudio antes do surgimento dos meios magnéticos... grandes talentos não podiam ser facilmente gravados ou apresentados ao público pela falta de uma forma simples e barata de se gravar! Existiam os rolos de Edson e os discos de Shellac, mas nenhum desses meios era prático para se gravar ou regravar, até o surgimento dos meios magnéticos. Quando finalmente surgiram os gravadores em rolo, tornou-se fácil não apenas as produções profissionais, mas também gravações amadoras, sejam elas caseiras ou semi-profissionais. Os gravadores de rolo promoveram uma verdadeira revolução na música, seja em casa, nos estúdios ou nas rádios! Até hoje ainda existem muitos estúdios que querem aquele som quente e analógico, e para isso utilizam gravadores de rolo. Como bem sabemos, estes aparelhos também são muito amados por audiófilos, graças a sua qualidade ímpar. Como diz um amigo meu: 'Não existe sonoridade melhor que aquela dos meios magnéticos'.

Já há algum tempo os gravadores de rolo voltaram a despertar o interesse global, chegando ao ponto de considerarem o rolo como 'o novo vinil'. Recomendo aos nossos leitores que leiam estes dois artigos:



Este novo despertar dos gravadores de rolo trouxe até nós um gravador de rolo Nagra, modelo IV-STC. Para quem não conhece, estes pequenos e notáveis gravadores eram usados principalmente em gravações de áudio para filmagens, onde se exigia portabilidade, alta qualidade, e sincronização com vídeo. O Nagra IV rapidamente achou seu lugar neste meio, tendo sido muito utilizado ao redor do mundo. Hoje em dia, os Nagra passaram a ser desejados por audiófilos graças a suas enormes qualidades construtivas e por sua doce e maravilhosa sonoridade.

Se querem ter uma leve ideia da qualidade destes gravadores, basta reparar que os guias por onde passam as fitas são feitos em rubi. Sim, rubi, a pedra preciosa, para o menor atrito possível. A Nagra não poupou gastos no projeto dos Nagras. Rubis foram usados em relógios por séculos, como mancais de baixo atrito para os diminutos eixos das engrenagens. É claro, apenas relógios de grandes marcas usam rubis em suas máquinas, assim como a Nagra usou enormes rubis em seu maquinário de gravadores de rolo.

Pois bem, hora de prosseguirmos com nossos trabalhos... este é o Nagra que recebemos.

Nagra IV-STC

O aparelho só tinha problemas rs... não gravava, não reproduzia, mecanicamente o sistema de transporte não travava corretamente. Bem, ele ligava, mas só. De antemão já sabíamos que este Nagra tinha passado por outras mãos, que não conseguiram repará-lo. Muitas vezes a necessidade de peças raras torna os reparos financeiramente proibitivos. Será que seria este o caso aqui? Vamos descobrir.

Assim como em qualquer tipo de equipamento, o reparo em gravadores de rolo tem de seguir um certo planejamento básico: primeiro deve-se verificar e reparar os problemas mecânicos, para em seguida prosseguir-se às análises e reparos dos problemas eletrônicos. Já sabíamos que este Nagra apresentava ambos problemas, então iniciamos nossos trabalhos corrigindo as falhas mecânicas.

Falhas mecânicas

O Nagra, como o recebemos, não apresentava correto acoplamento da cinta da fita magnética com o cabeçote de gravação. Visualmente já identificávamos este problema, que era bem óbvio! Inspecionamos toda a mecânica e não encontramos nada faltando ou danificado... só nos restou acreditar que alguém já havia desmontado o aparelho antes e remontado sem o correto sincronismo do mecanismo interno.

O jeito é desmontar tudo! Começar do zero. Iniciamos removendo as correias e o motor.

Motor removido

Em seguida, prosseguimos removendo as outras polias e a cobertura do mecanismo de sincronismo.

Desmanche do sistema mecânico

Desmanche do sistema de alavanca

Desmanche da polia principal

Desmanche da proteção do sistema de sincronismo

Depois de desmontar todo o sistema mecânico, esperávamos ver um erro na montagem das engrenagens de sincronia, erro este que só poderia ter sido causado por algum curioso que trabalhou no aparelho antes de nós. Era a única explicação plausível para a falha que estávamos vendo...

Sim, definitivamente alguém desmontou e remontou tudo errado! As marcas vermelhas nas engrenagens da foto abaixo indicam como estavam as engrenagens antes do reparo. As marcas vermelhas se tocavam, o que é incorreto. O sincronismo correto é feito a partir de pequenos furos demarcados pela fábrica.

Sistema de sincronismo

Veja abaixo em detalhe as marcas de sincronismo de fábrica, e as engrenagens já removidas e reinstaladas em sua posição correta.

Sincronismo corrigido

Bem, agora o transporte funcionava adequadamente: bom wrap nas cabeças, velocidades, avanço e retrocesso em bom funcionamento. Já temos um aparelho em um estado que nos permite ir em frente para os reparos eletrônicos.

Falhas eletrônicas

Claramente estávamos lidando com um equipamento que passou pelas mãos de curiosos. Nesses casos, já sabemos que vamos encontrar muitos problemas ocasionados por terceiros, defeitos estes que não encontraríamos naturalmente em um aparelho original que apenas deixou de funcionar. Este aqui deixou de funcionar e foi totalmente fuçado, até que desistiram e deram o aparelho como irreparável.

Já sabemos que o aparelho não grava nem apaga as fitas nele colocadas. Claramente há algum problema no circuito de bias. A placa de bias foi  removida e avaliada.

Conseguem ver o problema? Tentem decifrar o que está errado na placa abaixo. É algo bem óbvio, mesmo para um olho destreinado...


Placa de bias

Se não acharam o erro, reparem bem abaixo do transformador de bias, a peça quadrada com vários pontos de solda... logo abaixo dela, faltam dois transistores! Exatamente os transistores de bias! Bingo. Novos transistores teriam de ser encomendados e instalados. Neste ponto do reparo, um técnico desavisado provavelmente apenas os substituiria por qualquer outro e pronto, imaginaria ter reparado o problema. Mas como somos experientes nestes restauros, já sabemos que se estavam faltando, tem algo errado...

Para prosseguirmos, é preciso antes:

1 - Encontrar o manual de serviço e descobrir quais os transistores originais usados. Não, não usaremos qualquer transistor. Manter a originalidade é essencial
2 - Descobrir porque deixaram a placa sem transistores. Provavelmente eles foram danificados por algum motivo, e o problema não deve ter sido sanado, já que não simplesmente substituíram por outros. Minha voz da experiência me diz que tem algo errado aqui!!

Bom, vamos nos concentrar no problema 1 inicialmente. 

Encontrar manuais de serviços hoje em dia deveria ser algo simples, e muitas vezes gratuito. Os manuais em grande parte já foram disponibilizados na internet por pertencerem a aparelhos descontinuados há muitos anos. No entanto, não existe manual de serviço disponível para os Nagra IV na internet (podem tentar achar!!). Não me restou opção senão entrar em contato direto com a Nagra.

Fomos surpreendidos pela notícia de que o manual de serviço não está disponível porque a Nagra ainda faz a manutenção nestes aparelhos!! Incrível! Mesmo após tantos anos, ainda existe demanda de uso e reparo destes gravadores. Esta foi uma boa e interessante notícia, mas a segunda notícia não era nada boa... a Nagra não mais vendia os manuais do modelo IV-STC. Até alguns anos atrás, era possível a compra do manual por pouco mais de 500 reais (um pouco caro, mas justificável). Infelizmente, já há alguns anos o manual não era mais comercializado.

Tive de trocar muitos e-mails para tentar achar uma solução, pois o manual de serviço era essencial ao reparo! Nos apresentamos como uma empresa especializada em reparos de vintage no Brasil, e conquistamos a confiança de quem nos ajudaria! Não, eles não nos venderiam o manual, mas pela metade do preço, abririam uma exceção e nos forneceriam acesso online ao manual em um de seus servidores. Era o suficiente para este reparo, e agradecemos pela ajuda :)

Bom, em frente. Já sabíamos qual transistor usar, mas permanecia a dúvida, porque quem fez o reparo antes não trocou os transistores, mas simplesmente deixou faltando? Esse tipo de situação sugere a um reparador experiente, que:

1 - Deve existir outro problema, que não foi solucionado. Os transistores ficaram queimando e o curioso simplesmente desistiu, deixando sem eles, para que o aparelho pelo menos ligasse.
2 - Se este era o caso, provavelmente acharíamos indícios de que o curioso trocou os transistores diversas vezes sem sucesso. Será? Vamos investigar...

As placas do Nagra são bem robustas, mas poderiam apresentar sinais de desgaste ou fluxo de solda dependendo da habilidade do curioso que trabalhou neste aparelho. Vamos ver.

Placa de bias - trace side

Vejam só! O curioso não apenas deixou marcas... ele destruiu as trilhas da placa de tanto que soldou e dessoldou os transistores, e no fim desistiu e deixou sem eles! Ele deve ter queimado pelo menos uma dúzia de transistores neste aparelho pelo visto.

Isso me indica que há um curto. O curioso não percebeu, e só viu que quando instalava os transistores, algo dava errado e o aparelho nem mesmo ligava (queimando o fusível) e rapidamente os transistores queimavam novamente. Ele acabou desistindo (depois de destruir a placa) e largou sem os transistores. 

Resolvi testar a teoria do curto, e, certamente, encontrei um curto direto ao ground na saída da placa de bias. Dada a lastimável situação do aparelho, resolvi continuar a análise visual do aparelho em busca de problemas óbvios para um olho treinado. Em poucos minutos achei alguns jumpers de configuração da placa de bias em desacordo com o manual de serviço.


Jumpers de bias

Os jumpers estavam configurados errado, mas isso não explicava o curto. Bem, de toda forma foram reparados... menos um defeito. Mas e o curto? Vamos por partes. O curto está na placa ou no resto do aparelho? Resolvi testar a placa individualmente conectada a uma fonte de bancada: tudo funcionou perfeitamente. o defeito estava no resto do aparelho! Poxa, agora complicou... já sei porque desistiram. Agora seria um desafio: existe um curto que pode estar em qualquer lugar do aparelho! Hora de inciar o tedioso trabalho de desmontar toda a eletrônica, isolar todos os componentes, e testar cada módulo individualmente até o problema ficar evidente.

Muitas horas de testes e muito suor depois... defeito encontrado! Existe um curto no sistema de timecode. uma análise ainda mais criteriosa revelou que um cabo coaxial oxidou internamente e entrou em curto, Um defeito dificílimo de se achar!! 

Conector com curto em um dos coaxiais

Conector desmontado para troca do cabo em curto

Ufa, curto misterioso solucionado! O problema de bias estava resolvido, mas haviam outros problemas a serem solucionados antes de um teste.

De cara, percebemos fios soltos e componentes pendurados. Acho que o curioso que trabalhou neste aparelho desistiu pela metade e devolveu ao dono pior do que recebeu!

Fios soltos

Mais uma consulta ao manual de serviços e descobrimos para onde esses fios deveriam ir. Um deles deveria estar conectado ao fusível, que foi removido completamente do circuito. Lembram-se da teoria de que o aparelho estava com a placa de bias em curto e queimando fusíveis? Este achado confirma esta teoria. Ok, tudo pronto hora de um teste!

Aparelho reconectado


Testes preliminares após reparos

Funcionou! Muito mal, mas funcionou. Neste ponto já sabíamos que o aparelho estava com todos os sistemas básicos funcionais, mas necessitava de uma reforma geral: troca de componentes fora de tolerância e recalibração geral com auxílio do manual de serviço! Mais umas 16h de trabalho e finalmente, tínhamos um Nagra em perfeito estado funcional em nossa bancada! Veja no vídeo abaixo nosso teste final do aparelho.






Espero que tenham gostado deste reparo! Este é um aparelho raro e merece uma restauração à altura. Um abraço meus amigos e até a próxima!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Pré Amplificador VTL TL-5

Olá meus amigos!

Já postamos anteriormente a primeira parte desta série, sobre a restauração dos Amplificadores VTL MB-225. Agora vamos falar sobre o restauro do Pré VTL TL-5, do mesmo conjunto dos amplificadores.

Recebemos este Pré "funcionando" (palavras de nosso cliente), mas necessitando de uma revisão. Este pré é dividido em duas unidades: uma unidade de fonte e outra de áudio, interconectadas por dois cabos multi-vias, um para cada canal. Apesar de estar 'funcionando', um defeito já era evidente até mesmo para o proprietário: não havia aterramento comum entre as duas unidades, e o proprietário acabou improvisando um fio que conectava o chassi da fonte ao da seção de amplificação. Quando soube disso, antes dos prés chegarem, não entendi bem porque faltaria um aterramento, já que estes prés também já haviam passado por revisão nas mãos de outra pessoa. Mais uma vez nos preocupamos... será que eles estariam como os dois monoblocos, com necessidade de retrabalho? Vamos descobrir ;)

Primeiramente abrimos a fonte para uma análise visual. Nunca ligamos os aparelhos antes de desmontá-los, pois mesmo com o relato de funcionamento parcial do proprietário é difícil saber se o aparelho está em reais condições de operação. Sempre abrimos, avaliamos visualmente, fazemos alguns testes básicos e só depois procedemos a uma ligação gradual com uso de um Variac.

A inspeção visual

Iniciamos nossa avaliação pelo chassi de fonte. Este pré nem conseguiu ser aprovado nesta primeira etapa! Abrimos o aparelho e, só de olhar, já sabíamos que era 100% inseguro operá-lo nas condições em que foi recebido... veja quantos problemas foram identificados em uma rápida inspeção:


Estado da fonte ao ser aberta


Primeiramente, existiam capacitores soltos internamente, apenas 'amarrados' pelos terminais. Quem trabalhou antes nestes prés ficou com preguiça de soldar os componentes! Sim, preguiça de soldar, ou então ele nem mesmo tinha um ferro de solda (prefiro não acreditar que seja este o caso...)! Ao que tudo indica, decidiu pegar fios, enrolar ao redor dos terminais dos capacitores e deixá-los soltos, enrolados desta forma, conectados ao circuito.., dá para acreditar? Já vimos de tudo por aqui, mas ainda somos surpreendidos por algumas gambiarras inacreditáveis como esta. Ficamos extremamente chateados ao ver o tratamento que aparelhos que deveriam ser o estado da arte em amplificação sonora recebem... acabam ficando com gambiarras muito piores que aquelas achadas em radinhos chineses de 5 reais.


Capacitores pendurados e amarrados pelos terminais

Estes capacitores pendurados não apenas representam um sério problema á qualidade eletrônica da fonte, mas representam também um sério risco à segurança do proprietário. Estes capacitores alcançam tensões de mais de 300V em seus terminais! Se porventura estes componente esbarrassem no chassi de metal (que neste caso não possuía aterramento, como mencionamos antes), deixaria presente um potencial de mais de 300V, algo LETAL ao proprietário, que facilmente poderia sofrer um acidente fatal se tocasse no Pré. Nunca antes havíamos recebido um aparelho em tão mal estado em termos de segurança de funcionamento.

Aos nossos clientes e leitores, deixamos um aviso: se você tem alguma dúvida se é seguro ou não usar seu equipamento, não o utilize. Sua vida vale muito mais que qualquer aparelho. Falamos sério, o achado acima é GRAVÍSSIMO!!

Ficamos nos perguntando porque quem reparou este pré antes de nós removeu o aterramento do chassi, e só pudemos concluir que foi na tentativa de evitar que um curto ocorresse se o chassi entrasse em contato com os terminais dos componentes pendurados. Infelizmente, se foi esse o motivo, remover o aterramento só piorou as consequências de um curto: ao invés de danificar o equipamento, sem o aterramento, um curto deixaria o chassi em potencial letal, causando uma armadilha mortal ao proprietário. Isso aqui só pode ter sido fruto de uma pessoa ABSURDAMENTE INEXPERIENTE.

Em sequência, continuamos nossa análise visual. De cara encontramos também um fio solto, mais uma vez, um fio carregando um potencial de mais de 300V, totalmente 'a deriva' e sem isolamento na ponta. Mais uma vez, risco letal ao proprietário.

Fio solto no interior do aparelho

A fonte sem aterramento estava causando ruído de fundo no áudio. O proprietário conseguiu identificar isso e enrolou um fio de aterramento em dois parafusos, um em cada chassi, fornecendo o aterramento que faltava. Ao abrirmos a fonte, imediatamente confirmamos que alguém removeu o aterramento da fonte. Não havia nada conectado ao parafuso de aterramento:


Parafuso de aterramento inutilizado

Continuando nossa inspeção, percebemos mais um conjunto de capacitores soltos e apenas com seus terminais enrolados com fios, na placa de baixo. Este pré usa uma fonte dupla, separada para cada canal. A gambiarra foi feita de maneira idêntica na fonte do outro canal. Mais um risco de choque letal ao proprietário!! Neste estágio, a chance de algo ter dado muito errado durante o uso deste pré já era altíssima...

Mais capacitores flutuantes em outra placa

Depois de passado o susto destes achados inacreditáveis, prosseguimos com nossa análise de defeitos. Encontramos muitos fios chamuscados e mal soldados às placas. Quem trabalhou aqui antes realmente não tinha nem mesmo habilidade com solda.

Fios chamuscados e danificados

Além disso, encontramos também uma quantidade de fios 'sobrando', com um comprimento desnecessariamente grande. Não é um defeito, mas demonstra uma falta de cuidado e desleixo. Fica muito feito deixar um monte de fio solto a toa em um aparelho...

Fios de cumprimento inadequado e desorganizados

Fios chamuscados e mal soldados

Revestimento de fio encontrado solto dentro do aparelho

Mais fios de comprimento exagerado

Feita a inspeção visual da fonte, prosseguimos para uma análise visual do chassi de áudio. Por sorte, o estado deste chassi não era tão ruim quanto o da fonte. Apesar de algumas modificações em relação ao esquema original, tudo parecia em ordem. Como estávamos ainda no estágio da inspeção visual, nada foi feito.

Reparos


Encontrados defeitos visuais tão óbvios, antes mesmo de orçarmos a revisão, tivemos de executar alguns reparos preliminares. Não seria possível tentar ligar o aparelho no estado que estava, por motivos óbvios.

Feitos estes reparos preliminares, que forneciam um mínimo de segurança para que o pré fosse operado, prosseguimos a um avaliação mais profunda dos defeitos, orçamos a revisão e obtivemos a aprovação do proprietário. Hora de deixar tudo novo de novo :)

O primeiro defeito encontrado é que um dos canais não apresentava tensão de B+ adequada.

Tensão de B+ baixíssima

Uma análise evidenciou falha em uma das válvulas de fonte, que foi trocada.

Troca das válvulas de fonte

Em seguida, todos os defeitos relatados na fase de inspeção visual foram devidamente reparados. A fonte ficou como nova, em perfeitíssimo estado e com a fiação super organizada, como gostamos!

Fonte terminada

Terminada a fonte, focamos nos reparos do chassi de áudio. Neste aqui existiam também fios mal soldados, mas o principal problema era uma modificação feita anteriormente, e muito mal planejada!

Encontramos no chassi de áudio 4 capacitores eletrolíticos nacionais, que foram adicionados como um 'upgrade' em algum reparo anterior. 

Capacitor adicionado ao circuito

A adição do capacitor por si só não é um erro... o problema é que quem fez isso, mais que dobrou a capacitância total no primeiro estágio de remoção de ripple! O que isso significa? Que quando o pré é ligado, um ENORME pico de corrente é demandado da fonte, causando desgaste desnecessário e eventual falha nos componentes de fonte. Quem fez essa modificação, claramente não considerou este aspecto, seguindo apenas um conhecimento popular (e incorreto) que circula por aí, de que quanto mais capacitância, melhor. Já ouvi isso antes, o que demonstra claramente que falta formação teórica de alguns profissionais.

Optamos por manter dois dos capacitores eletrolíticos e remover dois deles. Foram mantidos os dois que aumentavam a capacitância do segundo estágio, mas os capacitores de primeiro estágio adicionados foram removidos a fim de evitar picos excessivos de corrente.

Feitos todos os reparos, o chassi de áudio também estava pronto!

Chassi de áudio terminado

Tudo terminado!! Prosseguimos então a nossa audição de 08h, a fim de garantir que tudo estava funcionando bem e de maneira estável. Reparos concluídos!

Conjunto terminado


Tudo pronto! Prés embalados com todo o cuidado e enviados de volta a Brasília! Nosso cliente ficou satisfeito e nós também é claro!!

Happy Listening :)

domingo, 4 de junho de 2017

Amplificadores VTL MB-225

Olá meus amigos, este é o primeiro post de dois, sobre um conjunto pré e power VTL que recebemos de um querido cliente nosso em Brasília!

A princípio apenas iríamos postar o restauro do pré, que foi bem mais interessante. No entanto, como estamos devendo muitas postagens por conta da correria, optamos por fazer dois posts, incluindo também o reparo do power.

Vamos ao trabalho? Recebemos os dois Amplificadores VTL MB-225, um par enorme de Powers pesadíssimos, com quase 200W cada um de pura magia valvulada!


VTL MB-225

Estes aparelhos chegaram até nós funcionando, mas necessitando uma revisão geral. Neste caso, o que sempre fazemos é minuciosamente testar e inspecionar TUDO no aparelho, a fim de garantir que conseguimos cercar todas as possíveis fontes de problemas, especialmente se o aparelho já passou por alguma manutenção prévia.

Será que foi o caso destes aqui? Vamos descobrir? Chegou a hora mais divertida: desmontá-los :)

Interior de um dos MB-225

Viram algo estranho na foto? Vou ajudá-los: todos os capacitores de acoplamento estão flutuando! Alguém decidiu que seria uma boa ideia remover os excelentes capacitores originais fabricados nos EUA por capacitores chineses sem marca. Para piorar tudo, não removeram corretamente os antigos capacitores, dessoldando-os: apenas cortaram os antigos e 'penduraram' os novos chineses no lugar, criando pontos de solda fria, danos a placa e até mesmo riscos de curto! Já que o serviço executado previamente neste aparelho foi tão ruim, melhor avaliarmos com cautela todo o restante, pois podem haver mais problemas...

Capacitor chinês 'flutuante'

Capacitor chinês 'flutuante' e muito mal instalado!

Sinceramente, não compreendo o motivo pelo qual quem fez este serviço não ter se dado ao mínimo trabalho de cortar os terminais dos capacitores para garantir uma melhor robustez a choque destes componentes. Fico imaginando quantos técnicos ruins estão por aí, economizando 10 segundos de trabalho a troco de um serviço absolutamente inaceitável... reflito mesmo sobre isso, pois tenho certeza que o proprietário não pagou barato por este reparo, e o técnico com certeza não deu ao aparelho o devido cuidado que ele merecia. Uma pena.

Além dos capacitores de acoplamento soltos, existiam também capacitores eletrolíticos na mesma situação. A cola original de fábrica se soltou e o reparo anterior falhou em cuidar destes problemas.

Capacitor eletrolítico solto

Uma análise mais profunda revelou problemas de solda fria nas placas, resistores danificados, fios quase arrebentados e chamuscados em alguns pontos, além de muita cola seca espalhada no interior,... uma bagunça! As válvulas de sinal de entrada 12AT7 estavam descasadas, tanto em marca como  em transcondutância, deteriorando sensivelmente a sonoridade dos aparelhos.

O reparo destes amplificadores consistiu então na troca de todos os capacitores de acoplamento por capacitores americanos de marca, além de nova fixação de todos os eletrolíticos soltos e os reparos dos pontos de solda fria e resistores danificados. As válvulas descasadas foram trocadas por um par das sensacionais Genalex B739.

Válvulas Genalex

Deu trabalho, mas valeu a pena! Vejam como a placa, depois de todos os reparos, ficou limpa e organizada, além de perfeitamente funcional, é claro ;)

Placa após os reparos

Viram os novos capacitores, devidamente soldados?

Ambos monoblocos estavam EXATAMENTE no mesmo estado e ambos passaram então pelos mesmos reparos em nossas mãos, corrigindo os defeitos encontrados e também eliminando todos os problemas causados na última tentativa de reparo.

Os aparelhos foram embalados e enviados a seu dono, que ficou satisfeito com nossos reparos! É extremamente recompensador recebermos feedbacks tão positivos de nossos clientes :)

Até a próxima meus amigos e Happy Listening!

domingo, 21 de maio de 2017

Reparo do Musical Fidelity Primo : um pré de 11.000 dólares.

Olá meus amigos! Chegou mais um belíssimo valvulado até nós: um pré amplificador Musical Fidelity Primo! Vejam que monstro...




Para quem não conhece, a Musical Fidelity tornou-se famosa por criar belos aparelhos a preços acessíveis. No caso deste pré, eu não o chamaria de acessível, a um custo de 11.000 dólares (msrp)...
não há como não reparar em como o aparelho é bem montado e robusto.

Este aparelho chegou até nós com um defeito, a princípio, bem simples: dois dos Leds azuis que iluminam as válvulas estavam apagados. Tudo parecia ser apenas um defeito estético, mas que incomodava o proprietário o suficiente para enviar o aparelho até nós para reparo. Achamos que seria um reparo simples, mas continue lendo e verá como surpresas aparecem e muitos trabalhos simples podem se tornar mais complicados que o esperado!

A primeira dificuldade é desmontar o aparelho... ele é todo montado em 'camadas'. Dois leds estavam com problemas, um em cada placa amplificadora (existe uma placa esquerda e um direita, para os respectivos canais). Para se chegar até a placa, é necessário primeiro remover a tampa superior. Em seguida é necessário remover a tampa central que protege a fonte, para então remover as tampas individuais de cada uma das placas amplificadoras. Só o desmonte já levou um tempão, e dezenas parafusos foram removidos.

Ao analisar as placas superficialmente, percebemos que existia um circuito ligado a cada LED... não apenas para acendê-lo de imediato quando o aparelho é ligado! O aparelho testa de maneira básica cada uma das válvulas e se detecta algum problema, não liga o LED, para que o usuário possa claramente ver qual válvula está com problema. É um teste de filamento simples, mas achei interessante, por nunca ter visto tal circuito antes. Não deixa de ser uma novidade!

Aparelho desmontado

Já que os LEDs não são apenas um mero enfeite, resolvi realizar um teste completo. Testar todas as válvulas uma a uma, limpar todos os contatos dos soquetes, lixar tudo e remover qualquer oxidação. Um dos LEDs defeituosos imediatamente voltou a funcionar, se tratava de um problema de oxidação nos pinos de uma das válvulas, No entanto, o outro LED continuou apagado. Hora de testar os circuitos ao redor...

Parte do circuito de alimentação do LED

Basicamente este circuito testa se há corrente no filamento da válvula. Caso exista, o LED se acende, através de um transistor (ilustrado na foto acima). Um breve teste no circuito evidenciou que tudo funcionava como deveria, mas o LED mesmo assim não se acendia. Hora de trocar o LED, que com certeza estava queimado. Infelizmente, a troca do LED não seria nada fácil!!

LED 'preso' pelo soquete


Neste aparelho, os LEDs são soldados antes dos soquetes, e não é possível removê-los sem retirar a placa por completo do aparelho e dessoldar o soquete correspondente. O LED simplesmente não passa pelo pequeno furo presente no soquete, mesmo se dessoldado, devido à pequena aba presente em sua parte posterior. Mais algumas horas de trabalho, mais algumas dezenas de parafusos para remover todas as placas e... LED removido!!

LED queimado

Como podemos ver a seguir, o soquete teve de ser totalmente dessoldado para que o LED pudesse ser removido:

Soquete removido

Um novo LED foi soldado, juntamente com o soquete original, que foi reinstalado.

LED e soquete sendo ressoldado

Em seguida, o fluxo de solda foi limpo com álcool isopropílico e a placa foi reinstalada no aparelho. Como muitos de vocês devem saber, somos absurdamente perfeccionistas, e de antemão já sabíamos que teríamos um pequeno problema: a luminosidade destes LEDs de alto brilho variam ENORMEMENTE de fabricantes para fabricante e até de lote para lote. É óbvio que o novo LED não iria se acender exatamente como os outros. A diferença não era grande, mas era perceptível. O que fazer? Fácil: utilizamos um luxímetro e medimos a luminosidade dos LEDs originais. Em seguida, ajustamos o resistor de corrente do novo LED instalado para que a luminosidade fosse idêntica a dos LEDs originais. É um detalhe mínimo, mas se não ficar perfeito, não ficamos satisfeitos rs... sim, somos meio loucos!

LEDs após reparos

Continuando, como sempre fazemos, não nos limitamos a apenas reparar defeitos reportados. Sempre que recebemos um aparelho, testamos tudo e sempre realizamos uma avaliação completa, a fim de garantir que o aparelho saia daqui com uma boa saúde e perspectiva de uma vida longa! Uma análise visual na fonte revelou problemas...

Capacitores de fonte

Vocês conseguem ver o problema? Os capacitores estão completamente estufados. Isto é um problema comum, especialmente em equipamentos de 115V que são ligados em 127V no Brasil, e trabalham no limite de suas tensões. Seria este o caso? Vamos ver...

Tensão de operação do aparelho

Bingo! 115V!! Mais testes confirmaram que os capacitores deste primeiro estágio da fonte estavam operando com uma tensão ligeiramente maior que a máxima permitida. Optamos por testar todos os eletrolíticos. No fim, apenas os que estavam estufados tiveram de ser trocados. O dono do equipamento foi avisado que o mesmo deveria ser operado em 115V, e não mais em 127V, mesmo os capacitores tendo sido trocados por valores de maior tensão.

Muitos acreditam que esta pequena diferença na tensão de rede não influencia em nada a operação do aparelho... pois está errado! Alguns aparelhos podem até se 'safar'... mas com certeza a vida útil de muitos componentes será reduzida. Sempre utilize um condicionador de energia capaz de abaixar a tensão para o valor exato de seu equipamento.

Continuando os reparos, encontramos algumas falhas, de certa maneira graves, na execução do projeto deste aparelho. Existem alguns reguladores de tensão presos a dissipadores de fenolite revestidos em zinco. O problema é que estes dissipadores estão flutuando, sem qualquer fixação!!


Dissipadores flutuantes

O grande problema destes dissipadores é que, como não estão fixos, vibrações podem acabar danificando os pontos de solda entre o componente e a placa, causando mal contato ou falha geral no funcionamento. Fabricantes de bons equipamentos, especialmente da área de onde vem minha formação superior e área na qual trabalhei muitos anos (equipamentos de medição de alta precisão e durabilidade) jamais deixariam um componente instalado assim. Pode ser preciosismo, mas é um risco de falha desnecessário, Optamos por criar pequenos suportes e dar uma sustentação adequada a estes dissipadores.

UFA... viram só como ás vezes um simples problema relatado como 'tem duas luzinhas que não acendem' pode resultar em um reparo trabalhoso? Ainda bem que o dono queria que tudo ficasse perfeito, assim como nós sempre queremos! 

Tudo remontado, próximo passo era ouvir por 8 horas, como sempre fazemos, para garantir que tudo está 100%.

Equipamento terminado e em testes

Tudo pronto! O aparelho voltou a seu dono que ficou muito feliz com o resultado, assim como nós ficamos :)

Até a próxima meus amigos!