domingo, 21 de maio de 2017

Reparo do Musical Fidelity Primo : um pré de 11.000 dólares.

Olá meus amigos! Chegou mais um belíssimo valvulado até nós: um pré amplificador Musical Fidelity Primo! Vejam que monstro...




Para quem não conhece, a Musical Fidelity tornou-se famosa por criar belos aparelhos a preços acessíveis. No caso deste pré, eu não o chamaria de acessível, a um custo de 11.000 dólares (msrp)...
não há como não reparar em como o aparelho é bem montado e robusto.

Este aparelho chegou até nós com um defeito, a princípio, bem simples: dois dos Leds azuis que iluminam as válvulas estavam apagados. Tudo parecia ser apenas um defeito estético, mas que incomodava o proprietário o suficiente para enviar o aparelho até nós para reparo. Achamos que seria um reparo simples, mas continue lendo e verá como surpresas aparecem e muitos trabalhos simples podem se tornar mais complicados que o esperado!

A primeira dificuldade é desmontar o aparelho... ele é todo montado em 'camadas'. Dois leds estavam com problemas, um em cada placa amplificadora (existe uma placa esquerda e um direita, para os respectivos canais). Para se chegar até a placa, é necessário primeiro remover a tampa superior. Em seguida é necessário remover a tampa central que protege a fonte, para então remover as tampas individuais de cada uma das placas amplificadoras. Só o desmonte já levou um tempão, e dezenas parafusos foram removidos.

Ao analisar as placas superficialmente, percebemos que existia um circuito ligado a cada LED... não apenas para acendê-lo de imediato quando o aparelho é ligado! O aparelho testa de maneira básica cada uma das válvulas e se detecta algum problema, não liga o LED, para que o usuário possa claramente ver qual válvula está com problema. É um teste de filamento simples, mas achei interessante, por nunca ter visto tal circuito antes. Não deixa de ser uma novidade!

Aparelho desmontado

Já que os LEDs não são apenas um mero enfeite, resolvi realizar um teste completo. Testar todas as válvulas uma a uma, limpar todos os contatos dos soquetes, lixar tudo e remover qualquer oxidação. Um dos LEDs defeituosos imediatamente voltou a funcionar, se tratava de um problema de oxidação nos pinos de uma das válvulas, No entanto, o outro LED continuou apagado. Hora de testar os circuitos ao redor...

Parte do circuito de alimentação do LED

Basicamente este circuito testa se há corrente no filamento da válvula. Caso exista, o LED se acende, através de um transistor (ilustrado na foto acima). Um breve teste no circuito evidenciou que tudo funcionava como deveria, mas o LED mesmo assim não se acendia. Hora de trocar o LED, que com certeza estava queimado. Infelizmente, a troca do LED não seria nada fácil!!

LED 'preso' pelo soquete


Neste aparelho, os LEDs são soldados antes dos soquetes, e não é possível removê-los sem retirar a placa por completo do aparelho e dessoldar o soquete correspondente. O LED simplesmente não passa pelo pequeno furo presente no soquete, mesmo se dessoldado, devido à pequena aba presente em sua parte posterior. Mais algumas horas de trabalho, mais algumas dezenas de parafusos para remover todas as placas e... LED removido!!

LED queimado

Como podemos ver a seguir, o soquete teve de ser totalmente dessoldado para que o LED pudesse ser removido:

Soquete removido

Um novo LED foi soldado, juntamente com o soquete original, que foi reinstalado.

LED e soquete sendo ressoldado

Em seguida, o fluxo de solda foi limpo com álcool isopropílico e a placa foi reinstalada no aparelho. Como muitos de vocês devem saber, somos absurdamente perfeccionistas, e de antemão já sabíamos que teríamos um pequeno problema: a luminosidade destes LEDs de alto brilho variam ENORMEMENTE de fabricantes para fabricante e até de lote para lote. É óbvio que o novo LED não iria se acender exatamente como os outros. A diferença não era grande, mas era perceptível. O que fazer? Fácil: utilizamos um luxímetro e medimos a luminosidade dos LEDs originais. Em seguida, ajustamos o resistor de corrente do novo LED instalado para que a luminosidade fosse idêntica a dos LEDs originais. É um detalhe mínimo, mas se não ficar perfeito, não ficamos satisfeitos rs... sim, somos meio loucos!

LEDs após reparos

Continuando, como sempre fazemos, não nos limitamos a apenas reparar defeitos reportados. Sempre que recebemos um aparelho, testamos tudo e sempre realizamos uma avaliação completa, a fim de garantir que o aparelho saia daqui com uma boa saúde e perspectiva de uma vida longa! Uma análise visual na fonte revelou problemas...

Capacitores de fonte

Vocês conseguem ver o problema? Os capacitores estão completamente estufados. Isto é um problema comum, especialmente em equipamentos de 115V que são ligados em 127V no Brasil, e trabalham no limite de suas tensões. Seria este o caso? Vamos ver...

Tensão de operação do aparelho

Bingo! 115V!! Mais testes confirmaram que os capacitores deste primeiro estágio da fonte estavam operando com uma tensão ligeiramente maior que a máxima permitida. Optamos por testar todos os eletrolíticos. No fim, apenas os que estavam estufados tiveram de ser trocados. O dono do equipamento foi avisado que o mesmo deveria ser operado em 115V, e não mais em 127V, mesmo os capacitores tendo sido trocados por valores de maior tensão.

Muitos acreditam que esta pequena diferença na tensão de rede não influencia em nada a operação do aparelho... pois está errado! Alguns aparelhos podem até se 'safar'... mas com certeza a vida útil de muitos componentes será reduzida. Sempre utilize um condicionador de energia capaz de abaixar a tensão para o valor exato de seu equipamento.

Continuando os reparos, encontramos algumas falhas, de certa maneira graves, na execução do projeto deste aparelho. Existem alguns reguladores de tensão presos a dissipadores de fenolite revestidos em zinco. O problema é que estes dissipadores estão flutuando, sem qualquer fixação!!


Dissipadores flutuantes

O grande problema destes dissipadores é que, como não estão fixos, vibrações podem acabar danificando os pontos de solda entre o componente e a placa, causando mal contato ou falha geral no funcionamento. Fabricantes de bons equipamentos, especialmente da área de onde vem minha formação superior e área na qual trabalhei muitos anos (equipamentos de medição de alta precisão e durabilidade) jamais deixariam um componente instalado assim. Pode ser preciosismo, mas é um risco de falha desnecessário, Optamos por criar pequenos suportes e dar uma sustentação adequada a estes dissipadores.

UFA... viram só como ás vezes um simples problema relatado como 'tem duas luzinhas que não acendem' pode resultar em um reparo trabalhoso? Ainda bem que o dono queria que tudo ficasse perfeito, assim como nós sempre queremos! 

Tudo remontado, próximo passo era ouvir por 8 horas, como sempre fazemos, para garantir que tudo está 100%.

Equipamento terminado e em testes

Tudo pronto! O aparelho voltou a seu dono que ficou muito feliz com o resultado, assim como nós ficamos :)

Até a próxima meus amigos!

sábado, 6 de maio de 2017

Restauração de Caixas Gradiente Master 44

Olá amigos, para hoje teremos uma restauração diferente! Um par de caixas vintage nacionais, as Gradiente Master 44!

Este post é dedicado a todos que curtem um bom vintage nacional :)

Gradiente Master 44 - Audiorama

Estas caixas eram do falecido pai de um cliente nosso e tinham elevado valor sentimental. Nosso cliente deixou claro que queria uma restauração completa, pois eram itens de enorme valor para ele. Pedi que ele trouxesse as caixas até a Regence Audio para avaliarmos o estado e vermos o que poderia ser feito. Esperávamos pequenos defeitos e danos, mas não foi bem o que chegou até nós rs...

Primeiramente, alguém já havia iniciado a restauração, mas acabou foi por destruir as caixas completamente. Alguém resolveu remover os alto falantes e conseguiu danificá-los por completo neste processo, veja só...

Falantes recebidos

As caixas em si estavam com várias partes do folheado faltantes, muitos riscos e marcas de umidade (estufados principalmente na parte inferior). Teriam de ser totalmente restauradas.

Caixas como recebidas

Agora vem a pior parte, Os tecidos ortofônicos das molduras frontais estavam muito sujos e manchados. A forma correta de se consertar isso é trocar o tecido (e prejudicar a originalidade) ou remover todos os grampos que o prendem e enviar a uma lavanderia, na tentativa de recuperá-los. Na Regence Audio fazemos todo o trabalho a mão, inclusive a delicada limpeza dos tecidos originais, já que são insubstituíveis. Infelizmente, quem tentou recuperar as caixas antes decidiu que lavaria a moldura por completo, com o tecido preso a madeira. O resultado? Um FIASCO completo, vejam só:

Moldura como recebemos

Sim, recebemos ambas molduras como na foto: molduras em pó!! Acreditem ou não, foram TOTALMENTE SUBMERSAS em água na tentativa de lavar o tecido. Acabarem virando pó, literalmente. 

Portanto, após uma análise geral, concluímos que os seguintes trabalhos deveriam ser executados:

  • Restauro completo dos gabinetes com novo revestimento em madeira;
  • Restauro completo dos falantes;
  • Confecção de um novo par de molduras;
  • Limpeza dos tecidos ortofônicos originais;
  • Confecção de novos crossovers (originais não funcionavam);
  • Testes de audição.
O primeiro passo foi reformar os falantes. Neste ponto uma decisão teve de ser tomada, pois todos os quatro tinham de ser reformados, mas os cones originais não mais podiam ser obtidos. Por uma questão prática e financeira, chegou-se ao consenso de que seria instalado o material nacional de mais alta qualidade e que, dentro do possível, permitisse que o resultado final médio se aproximasse dos parâmetros Thiele-Small originais que tínhamos salvos em nosso banco de dados. Isso garantiria maior proximidade nas caraterísticas de resposta final. Apesar do visual diferente do original, após muitos testes e comparações de massa do conjunto mecânico, etc, o conjunto escolhido foi a melhor aproximação elétrica possível para o restauro. Falantes de marcas internacionais podem ser facilmente restaurados a seu estado 100% original, pois marcas como JBL e Altec ainda fornecem o material original de reparo. Infelizmente as marcas nacionais como Gradiente e Polyvox, há muito desapareceram e o material original não pode mais ser obtido.

Alto falantes restaurados

Em seguida o crossover foi refeito com a troca dos capacitores originais por novos bipolares. Toda a parte de marcenaria foi finalizada e as caixas completamente restauradas, com novas molduras e mantendo-se o tecido ortofônico original, agora limpo!


Gabinete restaurado

Acabamento novo no gabinete

Novas telas frontais foram confeccionadas, EXATAMENTE como as originais.

Novas telas frontais (ainda sem as logos instaladas)


Em seguida as caixas foram montadas e testadas. Ficaram lindas!!


Caixas após restauro

O último passo foi ouvir as caixas por 8 horas e embalá-las para envio. 

Caixas terminadas!

Caixas prontas para entrega!

O cliente ficou ABSOLUTAMENTE abismado com o resultado, e eu confesso que adoro ver esse olhar em nossos clientes. Ainda mais neste caso, que o cliente perguntou: 'São mesmo as mesmas caixas que eu deixei com vocês?? Não é possível!'.

Sim, são as mesmas caixas, mas depois de receberem muito carinho e muito cuidado, 

Até a próxima meus amigos!!














segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Reparo de um Integrado CARY 300SEI com válvulas 300B

Olá leitores do blog! Estou tirando o atraso de postagens de vários trabalhos feitos, que ainda não tinha tido tempo de postar. Vou fazer o possível para publicar algo novo pelo menos uma vez pela semana, a pedidos de alguns de nossos frequentadores assíduos :)


Desta vez recebemos um integrado Cary 300SEI, Single Ended com válvulas 300B na saída. Quem nunca ouvir, precisa ouvir as 300B, pelo menos uma vez na vida, pois são válvulas mágicas, de verdade!




Este chegou até nós com várias reclamações do proprietário:

  • Ruído de fundo elevado;
  • Pipocos, estouros e faíscas vindas de dentro do aparelho ao ligar;
  • Queima frequente de válvulas de saída 300B;
  • Instabilidade de funcionamento.

Acho que não preciso dizer que alguns destes defeitos são bem graves!! Muitos deles eram intermitentes, o que complica bastante o trabalho do restaurador, pois é necessário tempo para que o defeito se apresente e possamos diagnosticá-lo.

Este aparelho específico estava indo e voltando de técnico em técnico em SP, sem solução. O proprietário já estava muito chateado e até mesmo inseguro, e entrou em contato conosco explicando a situação. Tranquilizei-o confirmando que seríamos capazes de repará-lo sem dificuldades, solucionando todos problemas que há muito tempo assombravam este amplificador.

Este Cary tem uma ótima sonoridade, mas sua montagem interna (ponto-a-ponto) é bastante confusa e com um layout 'bagunçado', o que dificulta enormemente o reparo, pois, por dentro, é uma confusão só! Veja com calma a foto abaixa, que retrata como os modelos 300B da Cary tem uma montagem super desajeitada.

Cary 300B

Eu, como engenheiro, confesso que não sou grande fã desse tipo de montagem. A chance de componentes se soltarem, de uma fiação causar interferência em outra (gerando ruído), e a enorme dificuldade em se trabalhar em um aparelho assim são fatores que tornam este tipo de projeto mais problemático que montagens mais elegantes. Sou a favor do ponto-a-ponto, é claro, mas não este ponto-a-ponto bagunçado!

No caso do Cary que recebemos, cada um dos problemas era grave e foi diagnosticado com calma e atenção. Descreveremos cada problema e sua solução a seguir.


Ruído de fundo elevado
Por algum motivo a Cary optou por não usar cabo coaxial no caminho áudio, desde o conector RCA na traseira até o potenciômetro de volume na frente do amplificador!! Um erro grave de projeto. Este Cary nunca foi totalmente silencioso, mas a troca deste cabeamento reduziu o ruído de fundo em mais de 20dB! Além disso, grande parte do cabeamento era absurdamente longo, algo absolutamente desnecessário. Usaram o dobro do comprimento necessário e apenas o 'embolaram' em um cantinho.

Vejamos como o cabeamento estava originalmente:

Parte do cabeamento original

Reparem nos fios laranja e preto: eles são muito longos e foram embolados em um cantinho do chassi. Reparem o tamanho destes cabos quando foram removidos.

Cabos exageradamente longos

Pelas soldas e montagem estes cabos pareciam ser originais de fábrica, mas me assustou o enorme comprimento deles! Muitos cabos, muito grandes, embolados num canto: cabos de áudio, de alimentação, do circuito de mute. Tudo junto, enrolado de maneira deselegante em um cantinho.

Tivermos de remover todos, dessoldar, cortar e remontar de forma que tudo ficasse bem organizado., Vejam como ficou depois...

Cabeamento após reparos

Muito melhor concordam?

Em seguida resolvemos avaliar os cabos de áudio. Por algum motivo a Cary optou por usar fios comuns paralelos ao invés de um cabo coaxial com malha, para evitar contágio de ruído por campo magnético gerado por corrente alternada em fios vizinhos. Na nossa opinião, uma escolha ruim.

Iniciamos a avaliação removendo o potenciômetro de volume e chaves do painel frontal.

Desmanche para reparos de cabeamento

Foi nesse momento que encontramos os famigerados cabos paralelos para condução de áudio de baixa amplitude.

Cabos paralelos removidos

Removemos todos cabos paralelos e os substituímos por cabos coaxiais de qualidade. Como recompensa, o ruído de fundo caiu em mais de 20dB!! Inacreditável...


Pipocos, estouros e faísca vindas de dentro do aparelho ao ligar

Os estouros eram causados por outro erro na escolha de componentes internos. O primeiro estágio de filtragem de fonte possuía capacitores cuja tensão de trabalho era de 450V. O problema é que a tensão nestes capacitores chegava a 546V durante um curto período de tempo, período no qual as válvulas ainda estavam esquentando e não estavam ainda conduzindo corrente apropriadamente. Como resultado, estes capacitores não suportaram tal sobrecarga por muito tempo. Mais um erro de projeto da fábrica, sem dúvida.

Capacitor antigo de 450V (acima) e novos capacitores
 Gold Ruby de 700V (abaixo)

Reparem que a tensão chegava a 546V!!


Tensão excedida nos capacitores originais

Após a instalação dos capacitores de 700V, o amplificador passou a trabalhar com margem de sobra, como deveria ser desde o princípio!

Novos capacitores instalados, junto com dois 
current sharing resistors

Como sempre, não gosto de apenas 'consertar o que precisa para fazer funcionar'. Acho isso o típico trabalho mal feito, e isso explica porque tantos clientes meus reclamam de técnicos para os quais os aparelhos sempre ficam indo e voltando, e nunca ficam perfeitos. Isso acontece porque ninguém avalia os aparelhos COMO UM TODO. Apenas reparam o mínimo necessário (visando maximizar os lucros). O problema é que essa é uma visão que só maximiza os lucros a curto prazo. A longo prazo seu cliente ficará insatisfeito e nunca mais lhe dará mais reparos e restauros. Eu sempre olho tudo! E nessa investigação achei outro problema 'oculto'...

Reparem na foto abaixo os dois capacitores circulados em vermelho.

Capacitores suspeitos

Quem conhece, de cara reconhece que são capacitores Epcos nacionais. Até aí tudo bem, a Epcos é uma marca de renome, e alguém substituiu estes capacitores antes de mim... mas reparem que são capacitores de 100V. Agora vejamos a tensão aplicada neles...


Tensão medida nos capacitores

Entenderam o problema? Qualquer mínima varição de rede facilmente faria a tensão aplicada nestes capacitores ultrapassar os 100V, já que com 120V de rede ele já media 95.6V! Tudo bem, estava funcionando e dentro do valor permitido, mas estes capacitores eram pequenas bombas prestes a explodir no momento oportuno... teriam de ser trocados por valores com maior folga de tensão, e aqui também optamos por instalar capacitores importados Ruby Gold, de 350V.

Novo capacitor em processo de soldagem

Pronto, mais um problema solucionado! Hora de partirmos para o próximo.


Queima frequente de válvulas de saída 300B
Devido a constante troca de válvulas, os conectores dos soquetes afrouxaram a ponto de não mais promoverem um bom contato elétrico, além de apresentarem evidente oxidação. O resultado: diversas vezes as válvulas de saída perdiam o contato no pino de bias, resultando em excesso de corrente e sua consequente falha. Além disso, os capacitores de acoplamento originais apresentavam uma pequena fuga de corrente DC. Não era grave, mas a tendência deste tipo de defeito é sempre piorar. Neste ponto específico do circuito, capacitores de acoplamento com fuga DC alterariam o bias das 300B e causariam certamente sua queima, ou seja, tinham de ser trocados!!

Por ser um aparelho de sonoridade muitíssimo doce, não podíamos usar qualquer capacitor de acoplamento, e escolhemos PELO MELHOR DE TODOS. Capacitores NOS PIO Paper in Oil de 1000V e encapsulamento metálico.

Capacitor PIO novo


Em seguida todos pinos dos soquetes foram cuidadosamente lixados, limpos e tensionados.

Soquetes sendo limpos e tensionados


Instabilidade de funcionamento
Este era um problema causado pela soma dos outros anteriores, Quando todos os outros foram solucionados, tudo passou a operar dentro do esperado e sem surpresas!

Como o aparelho apresentava MUITOS problemas esporádicos, optamos por um longo período de burn-in e audição após todos reparos. O amplificador não apresentou problema algum e foi absolutamente aprovado :)

Mas, não acabou! Tem mais rs...

Além de todos reparos, restauramos algumas características originais que não mais estavam presentes no aparelho, provavelmente porque alguém que o reparou antes resolveu (por motivos desconhecidos) alterar o circuito original. Reinstalamos alguns capacitores de filtragem faltantes e um termistor de entrada de rede.


Capacitores faltantes reinstalados

Termistor instalado


Agora sim, acabou! Ufa :)

Reparo finalizado, testado, embalado, e devolvido em segurança ao dono. Mais um cliente e amigo satisfeito! Agradecemos pela confiança!

Até a próxima meus amigos!!



domingo, 21 de agosto de 2016

Sistema Hi-End Tri-Amplificado

Sim, o título não está errado! Resolvemos montar um sistema tri-amplificado, com nada menos que 5 amplificadores para um som estéreo! Imagino que a maioria de vocês nunca ouviu um sistema triamplificado, e este meu post tem exatamente o objetivo de despertar a curiosidade e incentivar todos vocês a experimentar novos arranjos e setups.

Primeiramente, muitos vão perguntar... para que isso tudo? Complicar a toa?? Pois a ideia não é complicar... apesar de ser o que parece. A ideia é exatamente o oposto, ter o caminho de áudio o mais limpo e claro para os diferentes conteúdos de frequências !!

Vou começar dando uma pequena explicação sobre como seu setup atual provavelmente funciona, se você usa um par de caixas e apenas um par de amplificadores mono ou um amplificador estéreo. Como sabemos, a maioria dos alto falantes não são capazes de reproduzir todas as frequências do espectro, de 20 a 20.000 Hz. Ou seja, usamos caixas de 2, 3 ou mais vias, separando este espectro em faixas, onde cada alto falante será responsável por reproduzir uma pequena parte deste espectro de frequências... mas você sabe quem 'divide' o espectro, enviando apenas uma parte do áudio para cada alto-falante? Chama-se crossover, e a maioria de nós usa o crossover embutido em nossas caixas acústicas, chamado de crossover passivo.

Chegou a hora de falarmos sobre crossovers. Pegue uma pipoca e continue lendo, prometo que será interessante :) Não quero ser técnico demais, quero apenas explicar o básico sobre crossovers, pois é uma contextualização importante para a compreensão geral deste artigo.

Existem dois tipos de crossovers: ativos e passivos. O crossovers passivos usam somente componentes passivos e não necessitam de uma fonte externa de alimentação para funcionamento. São estes crossovers que você possui embutido dentro de suas caixas acústicas, e provavelmente é este que você está usando neste exato momento para separar as diferentes frequências em seu sistema. São crossovers que trabalham com alta potência, pois atuam no sinal de saída do amplificador.
Por outro lado, temos os crossovers ativos, que são alimentados e, dentro da cadeia do áudio, são inseridos entre o pré e o(s) power(s), e por este motivo, não usam componentes de alta potência.

Crossover Passivo

Crossover Ativo Valvulado Luxman


Como disse antes, não quero ser muito técnico, e me limitarei a dizer que crossovers ativos são infinitamente superiores aos crossovers passivos. Ao se remover o crossover passivo, conectamos os falantes diretamente ao amplificador, permitindo que este trabalhe com controle total sobre o falante, eliminando todos os efeitos danosos provocados por este circuito intermediário de potência.

Se quiser ler mais sobre o assunto, e as diferenças reais e as explanações técnicas do porque dos grandes benefícios dos crossovers ativos, recomendo a página de Rod Elliott em inglês: http://sound.westhost.com/biamp-vs-passive.htm

Pois bem, a grande vantagem de se biamplificar ou triamplificar, é ELIMINARMOS completamente o crossover passivo das caixas e o trocarmos por um ativo. Em um sistema tri-amplificado, de 3 vias, é possível removermos totalmente as grandes limitações dos crossovers passivos e criarmos um sistema absolutamente superior aos tradicionais que estamos costumados a ouvir!

Pois foi o que fizemos. Já fazia muito tempo que eu planejava mentalmente me aventurar na montagem de um setup tri-amplificado, combinando alguns falantes e componentes que sempre me deram muito prazer na audição mono ou bi amplificada. Porque não, então, juntar tudo em um só? Muitos vão achar doidice, loucura... chamem como quiser. Estou aqui para experimentar, afinal, não é assim que se chega onde ninguém chegou antes?

Sempre gostei dos agudos dos tweeters ElectroVoice T350, dos médios das B&W e dos graves da JBL. Então, que tal somar tudo? Resolvi usar:
  • Tweeter ElectroVoice T350
  • Caixa B&W 685
  • Caixa JBL 4507
Para os powers, sempre gostei dos agudos dos Quad II, os médios dos McIntosh MC30 e os graves de um amplificador solid state nosso, que comercializamos no passado. Mais uma vez, vamos juntar tudo:
  • Par de monoblocos Quad II
  • Par de monoblocos McIntosh MC30
  • Power Estéreo Regence Audio SSA-01
Mas... qual crossover ativo utilizar? Eu não queria muitos transistores no caminho do áudio, então, optei por importar um crossover valvulado Luxman A2003, de 3 vias. Ideal para este setup!!

Por fim, escolhi como pré o Marantz 7, meu preferido de todos os tempos. Agora era só montar tudo... certo? Facinho...

Ou não! Ajustar o sistema todo foi uma trabalheira inimaginável. Primeiro tive de medir o SPL de cada um dos falantes, para depois calcular os ganhos individuais para cada via. Depois, tive de conferir e checar a fase de cada uma das vias, para garantir que tudo estaria em fase. Por sorte o Luxman permite inverter individualmente cada fase se necessário, uma mão na roda. Feito tudo isso com instrumentação específica, era hora de ouvir e fazer o ajuste fino. Mais uns 10 dias de mudança, melhoras, pioras, trocas... ufa! Confesso que foi um ENORME aprendizado. Deu muito trabalho mas valeu a pena!





Terminado e funcionando, era hora de convidar alguns amigos músicos para ouvir o setup... o pessoal enlouqueceu! Realmente surpreendeu. É um setup muito complexo de ser feito, que exige mais experimentação que muitos outros (pois possui uma infinidade a mais de parâmetros para serem ajustados), mas afirmo que vale a pena o esforço, pois o resultado compensa!

Portanto, convido a todos a experimentar. Experimente válvulas diferentes, setups diferentes, abra sua cabeça ao novo, até você encontrar aquele sistema que te tira do mundo real e te conduz para dentro da música. 


Happy Listening!



domingo, 14 de agosto de 2016

Audio Research SP-6

Amigos, um novo aparelho chegou até nossas mãos!

Recebemos um Audio Research SP-6 para um revisão geral. O aparelho estava funcionando, mas já não passava por revisão há muito tempo, apresentava um leve odor de queimado quando ligado e os controles estavam ruidosos.




O primeiro passo, sempre que recebo um equipamento, é abrir e fazer uma análise visual. Como já trabalho há muitos anos com estes equipamentos e possuo muitos deles em minha coleção particular, sei exatamente como deveriam ser originalmente, e procuro por modificações e componentes trocados. Como no Brasil não temos quase nenhuma mão de obra especializada em valvulados Hi-End, inúmeras vezes me deparo com aparelhos totalmente "gambiarrados", consertados por técnicos de esquina que nunca trabalharam em um valvulado.




Só de bater o olho, já vejo alguns componentes trocados: um regulador da fonte, capacitores eletrolíticos, alguns de acoplamento e a placa temporizadora. Nada grave para um aparelho desta idade. Costumo criticar os trabalhos prévios executados em grande parte dos aparelhos que recebo (pois só me aparece "gambiarra" rs...), mas no caso deste aqui, quem o executou está de parabéns. Um trabalho limpo e organizado, como deve ser. Infelizmente o executor deste reparo não deixou nenhuma marca ou etiqueta, para que eu o elogiasse abertamente por aqui... se você ler este post, identifique-se!

Hora de verificar as válvulas. Sempre que recebo um aparelho testo todas as válvulas e verifico  o fabricante, a origem e a qualidade, para sugerir eventuais upgrades ou trocas em caso de defeito. Conheço todas as válvulas já fabricadas, modelos, fabricantes, país e cidade de origem, estrutura interna, distribuidores, etc. Quem entende de válvulas sabe que todos este fatores são muito importantes para se definir a qualidade de uma válvula NOS!




Uma rápida análise indica que estas  são válvulas Hoges. A Hoges era uma empresa Alemã que não fabricava, mas apenas distribuía válvulas. A estrutura interna revela que esta válvula foi fabricada pela Ei, depois da compra do maquinário da Telefunken. É uma válvula Ei Smooth Plate, excelentes válvulas e todas com boa transcondutância. Nada a ser feito aqui.

Continuando a análise percebi que o circuito de temporização foi refeito, pois não era original. Apesar de ter sido feito em uma placa perfurada padrão, mais uma vez quem fez este trabalho foi cuidadoso! Trabalho limpo e bem feito. O tempo de fechamento do relé foi aumentado em relação ao tempo original, o que não é problema, a menos que o proprietário seja muito impaciente :).




Chegou a hora de atacar os problemas conhecidos!

Neste momento, sempre ligo o equipamento com um VARIAC, enquanto monitoro tensões chave do circuito. Se algo estiver errado, posso perceber antes que algum dano pior aconteça.

O odor de queimado estava sendo causado por um resistor de fonte, que é usado para reduzir a tensão entregue a um regulador da fonte, evitando-se assim superaquecimento e falha do regulador, Apesar de original, este resistor já estava fora de tolerância em mais de 30% e foi trocado.




Todos os controles e chaves foram cuidadosamente limpos com um produto próprio para essa finalidade. Queria aproveitar este momento para frisar que JAMAIS, JAMAIS, EM CASO ALGUM deve-se usar WD40 na limpeza de chaves e potenciômetros. Apesar de funcionar no curto prazo, o WD40 poderá a longo prazo danifiar partes internas dos potenciômetros, tornando o aparelho totalmente inutilizável e, em caso de alguns vintages, irreparável. Fica a dica!

Em seguida os conectores traseiros foram limpos e foi feita uma limpeza geral interna e externa. Alguns conectores não eram mais originais, mas a troca foi bem feita. Eu trocaria todos, mas essa não parece ter sido a escolha do restaurador anterior.




Por fim, fizemos nossa tradicional audição de 8h seguidas para garantir o perfeito funcionamento e sonoridade, e o equipamento foi enviado de volta a seu dono! Tudo perfeito!




Até a próxima meus amigos!