segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Reparo de um Integrado CARY 300SEI com válvulas 300B

Olá leitores do blog! Estou tirando o atraso de postagens de vários trabalhos feitos, que ainda não tinha tido tempo de postar. Vou fazer o possível para publicar algo novo pelo menos uma vez pela semana, a pedidos de alguns de nossos frequentadores assíduos :)


Desta vez recebemos um integrado Cary 300SEI, Single Ended com válvulas 300B na saída. Quem nunca ouvir, precisa ouvir as 300B, pelo menos uma vez na vida, pois são válvulas mágicas, de verdade!




Este chegou até nós com várias reclamações do proprietário:

  • Ruído de fundo elevado;
  • Pipocos, estouros e faíscas vindas de dentro do aparelho ao ligar;
  • Queima frequente de válvulas de saída 300B;
  • Instabilidade de funcionamento.

Acho que não preciso dizer que alguns destes defeitos são bem graves!! Muitos deles eram intermitentes, o que complica bastante o trabalho do restaurador, pois é necessário tempo para que o defeito se apresente e possamos diagnosticá-lo.

Este aparelho específico estava indo e voltando de técnico em técnico em SP, sem solução. O proprietário já estava muito chateado e até mesmo inseguro, e entrou em contato conosco explicando a situação. Tranquilizei-o confirmando que seríamos capazes de repará-lo sem dificuldades, solucionando todos problemas que há muito tempo assombravam este amplificador.

Este Cary tem uma ótima sonoridade, mas sua montagem interna (ponto-a-ponto) é bastante confusa e com um layout 'bagunçado', o que dificulta enormemente o reparo, pois, por dentro, é uma confusão só! Veja com calma a foto abaixa, que retrata como os modelos 300B da Cary tem uma montagem super desajeitada.

Cary 300B

Eu, como engenheiro, confesso que não sou grande fã desse tipo de montagem. A chance de componentes se soltarem, de uma fiação causar interferência em outra (gerando ruído), e a enorme dificuldade em se trabalhar em um aparelho assim são fatores que tornam este tipo de projeto mais problemático que montagens mais elegantes. Sou a favor do ponto-a-ponto, é claro, mas não este ponto-a-ponto bagunçado!

No caso do Cary que recebemos, cada um dos problemas era grave e foi diagnosticado com calma e atenção. Descreveremos cada problema e sua solução a seguir.


Ruído de fundo elevado
Por algum motivo a Cary optou por não usar cabo coaxial no caminho áudio, desde o conector RCA na traseira até o potenciômetro de volume na frente do amplificador!! Um erro grave de projeto. Este Cary nunca foi totalmente silencioso, mas a troca deste cabeamento reduziu o ruído de fundo em mais de 20dB! Além disso, grande parte do cabeamento era absurdamente longo, algo absolutamente desnecessário. Usaram o dobro do comprimento necessário e apenas o 'embolaram' em um cantinho.

Vejamos como o cabeamento estava originalmente:

Parte do cabeamento original

Reparem nos fios laranja e preto: eles são muito longos e foram embolados em um cantinho do chassi. Reparem o tamanho destes cabos quando foram removidos.

Cabos exageradamente longos

Pelas soldas e montagem estes cabos pareciam ser originais de fábrica, mas me assustou o enorme comprimento deles! Muitos cabos, muito grandes, embolados num canto: cabos de áudio, de alimentação, do circuito de mute. Tudo junto, enrolado de maneira deselegante em um cantinho.

Tivermos de remover todos, dessoldar, cortar e remontar de forma que tudo ficasse bem organizado., Vejam como ficou depois...

Cabeamento após reparos

Muito melhor concordam?

Em seguida resolvemos avaliar os cabos de áudio. Por algum motivo a Cary optou por usar fios comuns paralelos ao invés de um cabo coaxial com malha, para evitar contágio de ruído por campo magnético gerado por corrente alternada em fios vizinhos. Na nossa opinião, uma escolha ruim.

Iniciamos a avaliação removendo o potenciômetro de volume e chaves do painel frontal.

Desmanche para reparos de cabeamento

Foi nesse momento que encontramos os famigerados cabos paralelos para condução de áudio de baixa amplitude.

Cabos paralelos removidos

Removemos todos cabos paralelos e os substituímos por cabos coaxiais de qualidade. Como recompensa, o ruído de fundo caiu em mais de 20dB!! Inacreditável...


Pipocos, estouros e faísca vindas de dentro do aparelho ao ligar

Os estouros eram causados por outro erro na escolha de componentes internos. O primeiro estágio de filtragem de fonte possuía capacitores cuja tensão de trabalho era de 450V. O problema é que a tensão nestes capacitores chegava a 546V durante um curto período de tempo, período no qual as válvulas ainda estavam esquentando e não estavam ainda conduzindo corrente apropriadamente. Como resultado, estes capacitores não suportaram tal sobrecarga por muito tempo. Mais um erro de projeto da fábrica, sem dúvida.

Capacitor antigo de 450V (acima) e novos capacitores
 Gold Ruby de 700V (abaixo)

Reparem que a tensão chegava a 546V!!


Tensão excedida nos capacitores originais

Após a instalação dos capacitores de 700V, o amplificador passou a trabalhar com margem de sobra, como deveria ser desde o princípio!

Novos capacitores instalados, junto com dois 
current sharing resistors

Como sempre, não gosto de apenas 'consertar o que precisa para fazer funcionar'. Acho isso o típico trabalho mal feito, e isso explica porque tantos clientes meus reclamam de técnicos para os quais os aparelhos sempre ficam indo e voltando, e nunca ficam perfeitos. Isso acontece porque ninguém avalia os aparelhos COMO UM TODO. Apenas reparam o mínimo necessário (visando maximizar os lucros). O problema é que essa é uma visão que só maximiza os lucros a curto prazo. A longo prazo seu cliente ficará insatisfeito e nunca mais lhe dará mais reparos e restauros. Eu sempre olho tudo! E nessa investigação achei outro problema 'oculto'...

Reparem na foto abaixo os dois capacitores circulados em vermelho.

Capacitores suspeitos

Quem conhece, de cara reconhece que são capacitores Epcos nacionais. Até aí tudo bem, a Epcos é uma marca de renome, e alguém substituiu estes capacitores antes de mim... mas reparem que são capacitores de 100V. Agora vejamos a tensão aplicada neles...


Tensão medida nos capacitores

Entenderam o problema? Qualquer mínima varição de rede facilmente faria a tensão aplicada nestes capacitores ultrapassar os 100V, já que com 120V de rede ele já media 95.6V! Tudo bem, estava funcionando e dentro do valor permitido, mas estes capacitores eram pequenas bombas prestes a explodir no momento oportuno... teriam de ser trocados por valores com maior folga de tensão, e aqui também optamos por instalar capacitores importados Ruby Gold, de 350V.

Novo capacitor em processo de soldagem

Pronto, mais um problema solucionado! Hora de partirmos para o próximo.


Queima frequente de válvulas de saída 300B
Devido a constante troca de válvulas, os conectores dos soquetes afrouxaram a ponto de não mais promoverem um bom contato elétrico, além de apresentarem evidente oxidação. O resultado: diversas vezes as válvulas de saída perdiam o contato no pino de bias, resultando em excesso de corrente e sua consequente falha. Além disso, os capacitores de acoplamento originais apresentavam uma pequena fuga de corrente DC. Não era grave, mas a tendência deste tipo de defeito é sempre piorar. Neste ponto específico do circuito, capacitores de acoplamento com fuga DC alterariam o bias das 300B e causariam certamente sua queima, ou seja, tinham de ser trocados!!

Por ser um aparelho de sonoridade muitíssimo doce, não podíamos usar qualquer capacitor de acoplamento, e escolhemos PELO MELHOR DE TODOS. Capacitores NOS PIO Paper in Oil de 1000V e encapsulamento metálico.

Capacitor PIO novo


Em seguida todos pinos dos soquetes foram cuidadosamente lixados, limpos e tensionados.

Soquetes sendo limpos e tensionados


Instabilidade de funcionamento
Este era um problema causado pela soma dos outros anteriores, Quando todos os outros foram solucionados, tudo passou a operar dentro do esperado e sem surpresas!

Como o aparelho apresentava MUITOS problemas esporádicos, optamos por um longo período de burn-in e audição após todos reparos. O amplificador não apresentou problema algum e foi absolutamente aprovado :)

Mas, não acabou! Tem mais rs...

Além de todos reparos, restauramos algumas características originais que não mais estavam presentes no aparelho, provavelmente porque alguém que o reparou antes resolveu (por motivos desconhecidos) alterar o circuito original. Reinstalamos alguns capacitores de filtragem faltantes e um termistor de entrada de rede.


Capacitores faltantes reinstalados

Termistor instalado


Agora sim, acabou! Ufa :)

Reparo finalizado, testado, embalado, e devolvido em segurança ao dono. Mais um cliente e amigo satisfeito! Agradecemos pela confiança!

Até a próxima meus amigos!!



5 comentários:

  1. A todos os colegas que amam escutar música. Esse aparelho é meu, e vocês não imaginam quantos dissabores eu tive antes de encontrar o Bernardo. Pessoa séria e muito competente, resolveu definitivamente TODOS os problemas que meu aparelho apresentava.
    Bernardo, aproveito o espaço para agradecer o quase "milagre" que você fez nesse Cary. A cada semana de audição parece que o mesmo está ainda mais doce e com uma transparência quase fantasmagórica. Espero em breve apertar pessoalmente sua mão e levando na outra, mais um valvulado aparentemente perdido rsrs. Grande abraço.

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    1. Angelo, que enorme prazer vê-lo aqui na página sobre seu aparelho!
      Fico EXTREMAMENTE satisfeito com seu retorno e por saber que está feliz com nosso trabalho. Será um enorme prazer conhecê-lo pessoalmente e quem sabe recebê-lo em nosso Show Room para ouvirmos música meu caro!
      Grande abraço e estamos a sua disposição para quaisquer outras necessidades :)

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    2. Bernardo, eu é que fico feliz por tão calorosa acolhida. Conhecer o Show Room da Regence Audio acredito ser um sonho para muitos audiófilos. Muito obrigado.

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